UMA MACRO VISÃO DA EVOLUÇÃO

Admitida a teoria da evolução com todas as suas subteorias ou hipóteses, parte-se para uma macro visão que possa estabelecer uma compreensão do presente em função do passado.

É possível distinguir três grandes momentos, que podem ser denominados de saltos qualitativos, cercados ainda de grandes mistérios, que dariam origem a quatro dimensões diferentes neste passado/presente evolutivo.

O primeiro deles é o denominado big bang. Antes dele, energia ou matéria e energia extremamente condensada e, portanto, relativamente homogênea.

 A partir deste primeiro salto qualitativo, a matéria se organiza de forma sistêmica, desde o átomo ao macro cosmos, cujo equilíbrio dinâmico é proporcionado pelas forças gravitacionais, nucleares e eletromagnéticas.

O segundo salto qualitativo é o surgimento da vida neste planeta. A combinação de diferentes matérias e energias produzem indivíduos capazes de interagir com matéria e energia, e também entre si. Reproduzem-se, combinam-se e recombinam-se, formando indivíduos cada vez mais complexos em composição e em funções.

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A quantidade de indivíduos cresce bem como a sua diversificação. O todo formado por estes indivíduos em mutação, no ambiente planetário também em mutação, geológica pelas forças estabelecidas no primeiro salto qualitativo, e pela interação dos indivíduos vivos entre si e sobre o todo, retroage sobre os mesmos, resultando possibilidades de expansão diferenciadas. Alguns acabam extinguindo-se por menor capacidade de produzirem descendência viável, sendo seu lugar ocupado pelos que melhor se adaptaram ao todo e conseguiram maior descendência viável. E isto é seleção natural. Mutação mais seleção natural resulta em evolução.

Vida é este processo resultante do surgimento, interação, geração de descendência e morte de suas partes, os indivíduos, grupos ou espécies. As interações desarmônicas entre indivíduos ou espécies, especialmente na cadeia alimentar, onde a nutrição para o crescimento de uns depende da morte de outros para aproveitamento de matéria e energia, já parcial e previamente metabolizadas, harmonizam-se no todo, pois é assim que ele se mantém. A sobrevivência do todo depende, portanto, da convergência resultante das ações interativas de partes e todo, independente da intencionalidade das mesmas, garantido pelo poder equilibrado das partes, relativamente a elas mesmas, mas também ou especialmente em relação ao todo. O constrangimento das partes pelo todo através delas mesmas e pelo ambiente, resulta na seleção natural, pois a natureza neste caso é o todo.

Acontece então o terceiro salto qualitativo, derivado da emergência da mente.

Talvez não seja o homem o único animal a possuir capacidades cognitivas e mentais, mas é nele que, em função de outros fatores como, andar ereto disponibilizando as mãos para outras atividades enquanto se locomove, polegar opositor operacional, ampliando a capacidade de manusear objetos e ferramentas, aparelho fonador capaz para comunicação ampliada, proporcionando troca de informação, transmissão da mesma para a descendência, ampliação de conhecimentos quantitativa e qualitativamente pelo seu registro, como na escrita, interativamente ampliando o cérebro e suas capacidades, proporciona características que o torna totalmente diferente das demais espécies. Bertrand Jordan (2005, p. 125) escreve: “a consciência pode, de maneira plausível, resultar da evolução e ser selecionada por ela. E é ela que constitui o salto qualitativo capital que faz do homem um ser diferente dos outros animais [...]”.

Mas estas características não só o tornam diferente como lhe proporcionam poderes superiores aos demais indivíduos ou espécies e até sobre a natureza como um todo. Jordan (2005, p. 112):

Na realidade, e apenas de alguns milhares de anos para cá, nós escapamos da evolução. Ou melhor, deflagramos um novo processo que nada tem a ver com DNA e as mutações, que age a uma velocidade inimaginável, cem, mil vezes mais rápida que a evolução biológica e cujos resultados permanecem imprevisíveis. Pois trata-se agora de uma evolução cumulativa, que transmite a cada geração o essencial das aquisições da geração precedente [...].

Não existe ainda diversidade de espécies com capacidades equilibradas e capazes de formar um sistema que possa harmonizar os antagonismos estre as partes. Existem apenas indivíduos de uma mesma espécie com poderes bastante diversificados, tornando necessário um sistema que lhes seja superior e capaz de harmonizar estes poderes individuais ou coletivos, possibilitando um equilíbrio dinâmico e evitando eventual ponto de ruptura que possa levar a extinção.

Mas não é só a teoria evolucionista que nos enseja esta interpretação. O texto bíblico da criação do mundo, mito para alguns, mas verdade divina para outros, relata a formação do homem a semelhança do criador, diferente de todo o restante da natureza e sobre a qual lhe é concedido amplo domínio. Independente do carácter que se atribua ao texto, secular ou religioso, é possível inferir dele, a percepção empírica de seu/seus autor/autores, já naqueles tempos, da magnitude das diferenças entre os seres humanos e o restante da natureza.

Esta diferença vem sendo ofuscada por parte da ciência que traz à tona unicamente ou principalmente as semelhanças biológicas dos seres humanos com os demais seres vivos, buscando sensibilizá-lo para a necessidade de convivência e preservação da natureza, necessária a sua própria sobrevivência, gerando o embasamento da “deep ecology” ou ecologia profunda. A auto submissão que deveria derivar desta sensibilização  não tem funcionado, pois é incompatível com a natureza humana, instintos e emoções não racionais e poderes imensos derivados do uso da razão.

DALAI LAMA. O universo em um átomo. Trad. Vera de Paula Assis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

JORDAN, Bertand. O espetáculo da evolução: sexualidade, origem da vida, DNA e clonagem. Trad. André Telles. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

PAPA FRANCISCO. Discurso do Papa Francisco por ocasião da inauguração de um busto em honra de Bento XVI. Vaticano: Libreria Editice Vaticana, 2014.

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Por outro lado, a outra parcela da ciência, ciências humanas e sociais, ignoram ou relativizam a ancestralidade do ser humano, as implicações e decorrências de termos evoluídos de seres instintivos não racionais, cujas características básicas não são substituídas pela razão, mas com ela vão compor a mente humana, onde principalmente no nível inconsciente vão agir e interagir de forma complementar e/ou antagônica e/ou recursiva.

Esta perspectiva, centrada na espécie humana, humanismo, ou no espécime humano, individualismo,, torna-se irreal ao ignorar o contexto sistêmico, incapaz de tornar o homem melhor, tanto mais equacionar a crise civilizacional que avizinha.

A POLÊMICA DA TEORIA EVOLUCIONISTA

A teoria evolucionista é polêmica e controvertida até dentro do meio científico quanto mais na sociedade geral, e especialmente antagonizada nos meios religiosos. Neste contexto, entende-se ser de grande importância as opiniões que a seguir se apresenta.

O atual Dalai Lama (2006) em seu livro “O universo em um átomo” escreve:

A teoria darwiniana é uma estrutura explicativa que dá conta da opulência da flora e fauna, a riqueza daquilo que os budistas chamam de seres sencientes, e das plantas que realmente constituem o mundo biológico a nós disponível. Até agora, a teoria escapou de provas em contrário e ofereceu a interpretação científica mais coerente da evolução da diversidade da vida na Terra. A teoria se aplica tanto no nível molecular — isto é, à adaptação e seleção de genes individuais quanto no nível macrocósmico dos organismos grandes. (p. 99)

Já no lado Ocidental, o Papa Francisco, líder da religião preeminente do cristianismo, em discurso proferido na Academia de Ciências do Vaticano em 27 de outubro de 2014 disse:

Enfrentais o tema altamente complexo da evolução do conceito de natureza. Como podeis bem entender, não abordarei a complexidade científica desta questão relevante e decisiva. [...] Quando lemos no Génesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milénios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva directamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a. A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Génesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade.

Ampliando o entendimento da criação do homem, o mesmo Papa Francisco, agora na encíclica sobre o meio ambiente, escreve no artigo 81:

Embora suponha também processos evolutivos, o ser humano implica uma novidade que não se explica cabalmente pela evolução doutros sistemas abertos. Cada um de nós tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em diálogo com os outros e com o próprio Deus. A capacidade de reflexão, o raciocínio, a criatividade, a interpretação, a elaboração artística e outras capacidades originais manifestam uma singularidade que transcende o âmbito físico e biológico. A novidade qualitativa, implicada no aparecimento dum ser pessoal dentro do universo material, pressupõe uma acção directa de Deus, uma chamada peculiar à vida e à relação de um Tu com outro tu.

Apesar de, e compreensivamente, a reticência das opiniões, explicitada pelo Dalai Lama quando diz: “até agora, a teoria escapou de prova em contrário”, é visível o avanço na aceitação da teoria da evolução, mesmo que com relutância ou perspectivas ajustadas.

 

 

 

 

SELEÇÃO MULTINÍVEL

A seleção multinível, especialmente a seleção de grupo, não destoando de toda a temática sobre evolução, é bastante polêmica. Tem em Edward Osborne Wilson um dos seus grandes defensores e é apresentada principalmente em seus livros, “A conquista social da terra” (2013) e “O sentido da Vida Humana” (2016).

Egoísmo e competição (antropomorfismos) são as características básicas da seleção individual.

Altruísmo e cooperação (também antropomorfismos) são as características básicas da manutenção de grupos e, portanto da seleção ao nível de grupo.

 

Evidentemente isto é uma simplificação grosseira da realidade. A coesão dos grupos não se dá apenas pelo altruísmo e cooperação voluntários de suas partes, mas por um processo complexo em que comparece também, além de outros fatores, a sujeição das partes por elas mesmas através do todo, bem como pela complementariedade de eventuais atitudes antagônicas. “Contraria sunt complementa”, Niels Bohr.

No entanto, se cooperação e altruísmo são necessários para manter a coesão do grupo, egoísmo e competição são características necessárias ao grupo para garantir a sobrevivência do mesmo frente a outros grupos. Indivíduos altruístas e cooperativos entre si também são egoístas e competitivos frente a indivíduos de outros grupos. Tribalismo.

 

PAPA FRANCISCO. Carta encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editice Vaticana, 2015.

WILSON, Edward Osborne. A conquista social da terra. Trad. Ivo Korytovski. São Paulo: Cia das Letras, 2013.

WILSON, Edward Osborne. O sentido da vida humana. Trad. Paulo Rêgo. Lisboa: Clube do Autor SA, 2016.