DESIGUALDADES ECONÔMICAS REGIONAIS

A disparidade de desenvolvimento, especialmente do desenvolvimento econômico, tanto entre indivíduos, como entre grupos, países, sociedades e culturas, ao longo dos tempos, mas se intensificando cada vez mais no presente, considerada como uma degradação da condição humana tem sido objeto de diversos estudos que concluem, também, com uma diversidade de explicações ou apresentam diversas teorias sobre suas causas e origens.

O determinismo biológico, base do racismo nazista, calcado na superioridade de determinadas etnias sobre outras, da raça branca sobre a negra ou asiática, no nazismo, mais especificamente da raça ariana sobre todas as demais, está hoje superado, mas chegou a ensejar declaração de antropólogos físicos e culturais, geneticistas, biólogos e outras especialidades, que em 1950, que reunidos em Paris, sob auspícios da Unesco, escreveram:

Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferença genéticas hereditárias constituiriam um  fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre as culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. (LARAIA, 2001, p. 10).

O determinismo geográfico, atribuído a Friedrich Ratzel, em função da perspectiva teórico-metodológica de alguns de seus seguidores, se pauta na geografia para explicar as diferenças de desenvolvimento (DETERMINISMO GEOGRÁFICO, 2017). Este enfoque, não como determinismo, mas como hipótese geográfica será melhor analisado em outro momento.

A hipótese cultural remonta ao sociólogo Max Weber, defensor de que a Reforma Protestante e sua ética desempenharam papel central na ascensão da moderna sociedade industrial da Europa Ocidental, de onde o desenvolvimento de propagou. Atualmente, “a hipótese cultural já não se baseia exclusivamente na religião, mas ela enfatiza igualmente outros tipos de crenças, valores e éticas” (ACEMOGLU; ROBINSON, 2012, p. 44).

O possibilismo, clara oposição ao determinismo geográfico, “considera o ambiente mero fornecedor de possibilidades para a modificação humana, sendo o homem o principal agente geográfico” (POSSIBILISMO / GEOGRAFIA, 2017).

A hipótese da ignorância é a uma teoria popular para explicar por que certos países são pobres e outros são ricos, “segundo a qual a desigualdade existe no mundo porque nós ou nossos governantes não sabemos o que fazer para tornar ricos os países pobres” (ACEMOGLU; ROBINSON, 2012, p. 50).

Por último, a hipótese da existência ou não de instituições políticas e econômicas inclusivas versus instituições políticas e econômicas extrativista, defendida por Acemoglu e Robinson (2012), contrapondo-se as hipóteses geográfica, cultural e da ignorância, principalmente, enfatiza o tipo das instituições públicas e privadas existentes, como determinantes da existência ou não, ou do maior ou menor desenvolvimento dos países.

Por instituições extrativistas, entende-se aquelas formadas por elites, que funcionam em benefício delas próprias, extraindo da coletividade os recursos necessários sob as mais diversas formas de opressão, desincentivando e desmotivando a população em geral para uma maior dedicação em prol do desenvolvimento, gerando um círculo vicioso difícil de quebrar. Já as instituições inclusivas, proporcionam a inclusão de um maior número de cidadãos, tanto na distribuição da renda como na tomada de decisões, repercutindo pelos incentivos recebidos em maior motivação em prol do desenvolvimento, normalmente criando um círculo virtuoso de progresso.

A estabilidade climática também é responsável por tornar a oferta de alimentos dentro de toda a cadeia alimentar perene. Isto favorecia consideravelmente o desenvolvimento de sociedades coletoras/caçadoras, pois dispunham do alimento o ano inteiro, diferente das áreas temperadas, onde o inverno frio e com neve, reduzia sensivelmente todos os processos vitais, que consequentemente reduz de forma considerável a oferta de alimentos. Animais com facilidade de locomoção, aves e animais marinhos, migram nestes períodos para áreas mais quentes e retornam após o inverno.

As árvores rebrotam. Outros vegetais ressurgem de sementes que suportaram o frio. Alguns animais armazenam nutrientes em seus corpos, como o urso polar que chegar a ter 40% do seu peso em gordura no início do inverno. Outras, a população se reduz, sobrevivendo da pouca alimentação disponível.

As sociedades humanas que passam da coleta/caça para agricultura, produzem alimentos a partir de plantas domesticadas em quantidade suficientes que possibilitam o armazenamento, facilitado pelo clima frio que inibe consideravelmente a ação dos biodegradadores, condição totalmente diversa do que ocorre nas áreas mais quentes, em que a deterioração dos alimentos é muito mais rápida. O alimento armazenado serve tanto para a sobrevivência dos seres humanos, como para os animais domesticados, tanto aqueles usados para o trabalho, como aqueles usados como alimento, tornando possível assim, o crescimento populacional e o desenvolvimento em regiões, onde isto seria praticamente impossível se dependesse da alimentação fornecida pela natureza e apropriada pela caça/coleta,

O trabalho faz parte da história da humanidade, desde a simples coleta de alimentos vegetais, passando pela caça e pesca, pela agricultura, até a complexidade do mesmo nos dias atuais, com incorporação de ferramentas e de tecnologias, que ora minimizam o esforço físico, ora aumentam a produtividade. Mesmo assim, sempre houve a necessidade de um esforço, por menor que fosse.

É comum em estudos de ergonomia, ao tratar das condições ideais de trabalho, incluir-se a questão da temperatura, um dos componentes do clima. Normalmente, se recomenda algo em torno de 13 a 19 ºC para trabalho físico e 18 a 24 ºC para trabalho mental sentado (GARCIA; BASTOS, 2009).

Com respeito às temperaturas mais elevadas, vejamos o que diz Laville (1977, p. 61):

Durante o trabalho físico no calor, verifica-se: um aumento do déficit sanguíneo e, portanto, da frequência cardíaca; um aumento da sudorese e portanto, uma perda de peso (que pode atingir  5 a 6% do peso do corpo quando em condições extremas) e de sal; um aumento da temperatura da pele, que tende a se igualar à das partes internas, e um aumento da temperatura central. A capacidade de trabalho muscular também se reduz, o rendimento decai e a atividade mental se altera, apresentando perturbação da coordenação sensório-motora, tempo de decisão alongado e vigilância diminuída.

A forma de minimização, excluindo-se evidentemente as mais recentes tecnologias de refrigeração, é diminuir a atividade física, também produtora de calor, abrigar-se do sol e ingerir líquidos, no ditado popular “sombra e água fresca”. Esta necessária adaptação ao ambiente é não raro interpretada meramente como “preguiça”, como já assinalou José Bonifácio nos “Apontamentos para a Civilização dos Índios Bravos do Império do Brasil”, em 1823 (apud PÁDUA, 1987, p. 34):

O homem no estado selvático e mormente o índio bravo do Brasil, deve ser preguiçoso; porque tem poucas, ou nenhuma necessidade; porque vagabundo, na sua mão está arranchar-se sucessivamente em terrenos abundantes de caça ou de pesca, ou ainda mesmo de frutos silvestres, e espontâneos; porque vivendo todo dia exposto ao tempo, não precisa de casas e vestidos cômodos, nem dos melindres do nosso luxo.

Dada a dificuldade de trabalhar com altas temperaturas, as pessoas que podiam decidir entre trabalhar com afinco e reduzir o ritmo, normalmente preferiam reduzir o ritmo, mesmo a custa de abrir mão de eventuais satisfações. É o caso típico dos índios já citado. As elites do nordeste brasileiro e do sul dos Estados Unidos usam então escravos, obrigados a trabalhar sob coação em substituição a mão de obra daqueles que tinham condições de optar e consequentemente produziam menos.

Também na América Central, como escreve Landes (2003, p. 127-128):

Os plantadores de cana queriam contratar homens brancos, mas os homens brancos, isto é, homens livres, não fariam tal trabalho — pelo menos não pelos salários que os plantadores se permitiam pagar. [...]. A resposta às necessidades de mão-de-obra, tanto nas ilhas quanto no continente, era trazer escravos africanos, às dezenas de milhares.

Abolida a escravidão, uma das alternativas foi a mecanização da lavoura, que a revolução industrial já estava disponibilizando, o que ocorreu principalmente das plantações de algodão no Sul da América do Norte. A desorganização social em detrimento dos menos favorecidos daí decorrente é inquestionável.

E é a tecnologia, com a mecanização substituindo a mão de obra, e a refrigeração amenizando as temperaturas onde o trabalho ainda se faz necessário, equipamentos os mais diversos, inclusive máquinas agrícolas já são dotados de cabines refrigeradas, que está minimizando a influência geográfica. Também o desenvolvimento econômico tem sua base sendo deslocada da produção primária, agricultura, pecuária, para a produção secundária e terciária, indústria, comércio e prestação de serviços, que podem ser realizadas em ambientes climatizados. Desta maneira, o mesmo aspecto geográfico, que dificultava o crescimento num momento, facilitava em outro, agora se torna praticamente indiferente.

Eventuais intempéries, como o granizo, seca, vendavais, bem como surto de pragas como o gafanhoto, podem frustrar toda uma safra. Em face disto, armazenar apenas o suficiente para um ano é temeroso. Na sociedade ocidental a religião judaico-cristã é predominante, e entre os relatos bíblicos encontra-se a história da interpretação do sonho do Faraó por José. Sete vacas gordas e sete vacas magras, significando sete anos de boas safras e fartura seguidos de sete anos de safras frustradas e miséria. As providências para o armazenamento de parte da produção dos sete primeiros anos, salvaram, não só o povo do Egito, mas de toda a circunvizinhança, de perecerem pela fome nos sete anos de safras frustradas que se seguiu. Esta história estimula a providenciar-se estoque da maior quantidade possível de alimento.

Dada a dificuldade de armazenagem, a utilização de outros bens de maior valor e menor volume se torna uma alternativa, utilizando-se os mesmos para aquisição de alimentos disponíveis em regiões não afetadas por eventual catástrofe localizada.

A segurança derivada da posse de estoques de alimentos, ou bens que possibilitem sua aquisição, torna a vida de qualquer pessoa mais tranquila, por que não dizer mais prazerosa. Possivelmente é aqui que nasce o apego ao “ter”, característica predominante da cultura dos países ricos, tão criticada por muitos, tanto que Erich Fromm escreve um livro sobre o tema, intitulado “Ter ou Ser?”, enaltecendo a característica do “ser” que prioriza o viver, cultuando e valorizando mais os relacionamentos humanos, tendo prazer nestes relacionamentos e não na posse de bens materiais e no apego a eles.

Se trabalhar em ambiente quente é muito mais penoso, viver em ambiente frio requer uma quantidade muito maior de apetrechos e acessórios, a começar pela roupa. Os índios brasileiros, especialmente os da Amazônia, e não só os brasileiros, mas praticamente todos os nativos de regiões tropicais vivem seminus. Isto é impraticável em climas frios e sob neve. A quantidade de roupa necessária é enorme e junto com ela vem toda uma “indústria” necessária para sua confecção, manutenção e limpeza. Abrigos para famílias, animais, alimentos e utensílios diversos. Espaços de entretenimento para as crianças que ficam confinadas por períodos mais ou menos extensos. Todas estas necessidades acarretam aumento de produção, que vai reforçar o círculo produção/renda/consumo do desenvolvimento econômico.

Karl Marx (apud GALVÃO; BENZERRIL, 2013, p. 25) corrobora o efeito da necessidade como motivação ao trabalho:

Uma natureza pródiga demais 'retém o homem pela mão como uma criança sob tutela; ela o impede de se desenvolver ao não fazer com que seu desenvolvimento seja uma necessidade de natureza. A pátria do capital não se encontra sob o clima dos trópicos, em meio a uma vegetação luxuriante, mas na zona temperada. Não é a diversidade absoluta do solo, mas a diversidade de suas qualidades químicas, de sua composição geológica, de sua configuração física, e a variedade de seus produtos naturais que formam a base natural da divisão social do trabalho e que excitam o homem, em razão das condições multiformes ao meio em que se encontra situado, a multiplicar suas necessidades, suas faculdades, seus meios e modos de trabalho.

Como já visto, o clima ameno, natural ou com aquecimento favorece também as atividades intelectuais. Esta atividade é responsável pelo desenvolvimento técnico-científico e tecnológico, de um novo elemento que incrementará o desenvolvimento econômico. A produção de conhecimento teórico leva a pesquisa e a produção de conhecimento sobre a natureza, sobre matéria, materiais e suas leis, possibilitando a produção de ferramentas e de tecnologias, culminando no domínio da natureza, extraindo dela e processando para uso, quantidade cada vez maior e com mais qualidade, o que o homem necessita, não só para suas necessidades básicas, mas também para seu prazer e deleite.

 Ou seja, trabalhamos, ganhamos e usamos nosso rendimento para consumirmos e sermos felizes. Além de reduzirmos a produtividade, pois enquanto consumimos não estaremos produzindo, também não conseguiremos poupança, pois os apelos do mercado nos conduzem a gastarmos tudo o que produzirmos, isto se não formos além e nos endividarmos. Poupar não é guardar o que sobra, mas deixar de consumir para guardar.

Um exemplo de poupadores, sem adentrar no mérito, é o povo judeu. Dispersos pelo mundo pelas diásporas há mais de dois mil anos, sofrendo perseguições religiosas e laicas, sendo massacrados e dizimados por diversos governos nos chamados progroms, o holocausto nazista, apesar de maior não foi o único, são detentores de significativa parcela do capital financeiro internacional (MORIN, 2007; FORD, s/d).

Com perspectivas eventualmente diferentes, mas diversos autores concluem que, independente das causas que tenham analisados, as soluções efetivas acontecem de dentro pra fora, de baixo para cima. Landes (2003, p. 592): “A história nos ensina que os mais bem- sucedidos tratamentos para a pobreza vêm de dentro”, complementando: “o que conta é trabalho, parcimônia, honestidade, paciência, tenacidade”.

Acemoglu e Robinson (2012, p. 316), apesar de estar falando de chefes tribais africanos, mas o fazia em relação ao governo da metrópole colonizadora, coloca: “Os três chefes tomaram nas mãos as rédeas do próprio destino quando tiveram a iniciativa de viajar para Londres”.

Schumacher (1983, p. 149) já colocava que: “O desenvolvimento não se inicia com bens materiais; começa com pessoas e sua educação, organização e disciplina.” Isto evidentemente é favorecido por ações externas, mas só se torna eficaz se for assumido e operar de baixo para cima.

Mas se a perspectiva sistêmica nos permite perceber os equívocos das análises e soluções propostas no passado, indicando-nos quais seriam as soluções que teriam eficácia, também ela nos mostra que a eficácia destas soluções que nos levariam a promover justiça para as presentes sociedades, desenvolvendo as subdesenvolvidas, nos levarão a promover a injustiça para as futuras gerações, pois este desenvolvimento distribuídos a todos, colapsará o planeta, inviabilizando-o para todos. Celso Furtado (2005, p. 89) já na década de 1970, escreveu:

O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevada que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco a sobrevivência da espécie humana. Temos assim a prova cabal de que o desenvolvimento econômico – a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável.

Desta forma, a eliminação das desigualdades é muito mais do que simplesmente desenvolver os menos desenvolvidos. É preciso equalizar o total do desenvolvido com a capacidade de suporte do planeta. Isto implica melhorar qualidade de vida dos menos desenvolvidos praticamente sem desenvolvimento, ou pelo menos sem aumento do consumo insustentável. Por outro lado será necessário uma redução do consumo insustentável praticado pelos mais desenvolvidos, mais ricos.

No total, como já ensinava Georgescu-Roegen (2012) na década de 1970, em função da entropia não só da energia como também da matéria, necessitamos de um decrescimento.

Não se discorda desta possibilidade, mas se ela não acontecer ou se demorar para acontecer, mesmo porque como diz Senge (1990), os maiores problemas de hoje derivam de soluções equivocadas de ontem, quando suas causas, efeitos e consequências distantes no tempo e no espaço não são devidamente considerados, e mormente em função da urgência destas soluções.

Pelo princípio da precaução, dever-se-ia aguardar a consolidação das soluções técnico-científicas, especialmente quanto a seus efeitos deletérios de longo prazo ou especialmente diluídos, mas que podem ser cumulativos.

Os pobres resistem a abstenção aos prazeres do consumo, sob a lógica de que se o outros puderam, por que, agora que se vislumbra a possibilidade de eles poderem, isto lhes seja negado, mesmo porque, a redução por parte dos ricos não é uma realidade. Já a abstenção dos prazeres do consumo por partes dos ricos é deveras difícil, pois sendo o consumismo um vício, superar a dependência de um vício é muito mais difícil do que evitá-lo. Em ambos os casos, os apelos do mercado contribuem para agravar as dificuldades.

O problema se agrava com a pregação daqueles que, como Jeffrey Sachs (2005), acreditam na possibilidade de desenvolvimento, sendo que a questão da capacidade de suporte do planeta, bem como a produção de alimentos, será resolvido pela ciência, como já vem sendo feito desde a revolução industrial.

Falando a respeito do desenvolvimento italiano, Bagnasco (2001, p. 361) escreve:

Uma economia atrasada necessita de auxílio externo. Cabe ao mercado verificar se esse auxílio é viável ou não, mas, como mostram os distritos industriais, o fator realmente decisivo é a resposta da sociedade local. A intervenção política e o auxílio externo são mais ou menos importantes e diferentes, dependendo dos recursos e dos problemas locais. Mas é bem possível que recursos de capital social estejam ocultos por toda parte, e que seja tarefa da política desenvolvê-los. A maneira de fazê-lo é construir uma nova governança das sociedades locais, que, cada vez mais, conte com seus próprios recursos, e que seja levada a cabo por uma nova classe política, cuja sustentação não mais dependa de transferências externas concedidas em troca de consenso político — uma classe política que assuma responsabilidade pelos cidadãos.

Como “capital social” o próprio autor conceitua como a “auto-organização da sociedade”, ou seja, uma trama de relações construídas ao logo do tempo, de que fazem parte a família, associações e redes comunitárias.

O sucesso do desenvolvimento no nordeste da Itália e o insucesso no sul, estão inseridos no enfoque já analisado, de diferentes climas em função do gradiente latitudinal. Exatamente o caso brasileiro, evidentemente invertendo-se os pontos cardeais, já que um está situado no hemisfério norte e outro no hemisfério sul.

A transformação do não desenvolvimento ou subdesenvolvimento em desenvolvimento compatível com os anseios da sociedade, devem levar em conta o que diz Landes (2003, p. 585):

A análise econômica acalenta a ilusão de que uma boa razão deve ser suficiente, mas as determinantes de processos complexos são invariavelmente plurais e interligadas. As explicações monocausais não funcionarão.

Nem as explicações e muito menos as soluções monocausais serão efetivas. Tanto as análises, como as explicações e também as soluções deverão ser sistêmicas.

A psicologia ambiental, pelo menos uma de suas vertentes, coloca que o comportamento dos seres humanos deriva de uma interação da pessoa e do ambiente (RIVLIN, 2003). Pinnel (2005, p. 51) vai mais longe, afirmando que este comportamento ao ser internalizado, influencia na genética do ser e acaba se transferindo para gerações seguintes.

Desta forma, a motivação para a produção de excedente para garantir a sobrevivência futura se internalizaria e se prolongaria através das gerações, que aliada a disposição propiciada pelo ambiente natural ou climatizado, realimentaria o círculo do desenvolvimento econômico.

Mesmo sem se deter em analisar outros fatores, é possível perceber, aplicando se a perspectiva sistêmica, que o desenvolvimento, inclusive o econômico, resulta da interação do ser humano com o ambiente como um todo, nele incluído também os demais seres humanos, e acontece, não só ao longo da história, mas remonta a pré-história, não é estático, mas em constante mudança, pois o homem altera o seu ambiente e é por ele influenciado.

Nesta dinâmica de interações, mudanças efetivas de rumo só acontecerão se todos os fatores, ou pelo menos os de maior alavancagem, que poderão retroagir realimentando o processo, forem estartados.

No caso de indivíduos ou sociedades menos desenvolvidos, a efetividade da mudança dificilmente acontecerá se não partir deles mesmos a iniciativa e o gerenciamento da mudança, pois inclusive fatores pessoais e subjetivos estão presentes, cuja mudança depende da consciência dos mesmos, conhecimento e disposição em mudá-los. Por exemplo, Landes (2003, p. 593) adverte:

Estamos vivendo, sem dúvida, numa época de sobremesa. Queremos que as coisas sejam doces; muitos de nós trabalhamos para viver e vivemos para ser felizes. Nada há de errado nisso; só que isso não promove uma alta produtividade. Queremos alta produtividade? Então deveremos viver para trabalhar e obter a felicidade como um subproduto. Não é fácil.

Como a maioria dos países desenvolvidos estava no norte, é comum “norte” com desenvolvimento e apego ao “ter”, e “sul” ao não desenvolvimento, cultuando, portanto, o modo de vida “ser”. Edgar Morin (2011c) associa o “norte” ao lado prosaico da vida, com “hegemonia da técnica, da economia, do cálculo, da racionalização, da rentabilidade e da eficiência (p. 9).” e continua (p. 17):

A lógica do Norte, enfim, é cega as realidades do Sul, consideradas por ela como atraso, arcaísmo, preguiça. O pensamento do Norte é feito para tratar os problemas de organização técnicos, práticos e quantificáveis, ou seja, a prosa da vida. Acontece que a vida humana não comporta apenas a prosa. A prosa é o que fazemos por obrigação, por imposição, para ganhar nossa vida. E ganhamos nossa vida, muitas vezes perdendo-a. A prosa nos faz sobreviver. Viver significa, entretanto, viver poeticamente, isto é, no amor, na comunhão, na realização de si, na alegria e, no limite, no êxtase.

Vejamos como estes diferentes modos de vida, derivando da condição climática entre outras coisas, concorrem ou não para o desenvolvimento econômico.

O círculo virtuoso/vicioso da “produção -> renda -> consumo/poupança -> produção” precisa de poupança não só para ser estartado, mas também para ser mantido, especialmente em épocas de crise. No modo de vida “ter”, poupar se tona algo natural, e isto vai incrementar exponencialmente o desenvolvimento econômico, inexistindo limites, ou seja, quanto mais, melhor.

Já no modo de vida “ser”, com menor ou sem apego aos bens materiais, praticamente inexiste poupança própria. Para estartar o desenvolvimento econômico normalmente se recorre à poupança de terceiros, sob empréstimo. Mas a falta de hábito de poupar, aliada a condição de dificuldade de produção, estamos falando especialmente de regiões quentes, acaba destinando quase toda a renda para o consumo, gerando um interminável processo de transferência de renda/capital por conta da remuneração da poupança externa (BRESSER-PEREIRA, NAKANO, 2003). E ainda é o poupador externo que é o culpado pela situação de insolvência e consequente não desenvolvimento econômico estável e sustentado.

Desta forma, a contribuição da hipótese geográfica para explicar as desigualdades regionais não fica invalidada pelos recentes desenvolvimentos de países situados nas áreas tropicais, a exemplo do que coloca Acemoglu e Robinson (2012, p. 38) citando países como: Cingapura, Malásia e Botsuana, que tem apresentado acelerado avanço econômico. Inclusive, nesta perspectiva se torna bastante válida a hipótese do possibilismo, pois é em função da intervenção humana ou das tecnologias por ele criadas que as influências geográficas estão sendo alteradas.

Na realidade, a superação da influência geográfica pela mão do homem por meio do uso do conhecimento, de ferramentas e de tecnologias dele derivadas está se consolidando a nível global. No entanto, a condicionante geográfica influenciou e moldou muitos comportamentos humanos que se consolidaram em suas culturas, que tenderão a desaparecer, mas que ainda exercem enorme influência na atualidade.

Estocar alimentos exige cuidados. Armazéns para proteger das intempéries, técnicas para evitar os insetos, quando cereais, que dele se alimentam, como o caruncho, de animais maiores, inclusive de outros seres humanos, mais chegados a obterem seu sustento com menos esforços, ou seja, roubando. Este alimento armazenado, não representa apenas bens materiais, mas a sobrevivência não só do indivíduo, mas de toda a sua família, levando-o a defendê-lo, com todas as suas forças, até com violência contra a ameaça, gerando o direito até de matar outro ser humano, o que hoje é muito polêmico, pois num primeiro momento parece sobrepor o valor dos bens ao valor da vida, quando na realidade, pelo menos no passado, o que estava em jogo era a sobrevivência de uns ou de outros.

Evidentemente, temperaturas elevadas tornam o trabalho mais penoso, reduzindo consequentemente a produtividade. A redução da produtividade coletiva resultará inevitavelmente em redução do crescimento econômico em termos comparativos, resultando diferenças significativas na riqueza de regiões ou países ao longo do tempo.

Já nas áreas temperadas, os rigores do frio podem ser amenizados de diversas formas. O aquecimento produzido pelo fogo é milenarmente conhecido, hoje substituído por outras tecnologias. O uso de abrigos coletivos remonta ao tempo das cavernas. Individualmente, o uso de roupas e de calçados, desenvolvidos ao longo do tempo, abriga do frio permitindo ao indivíduo a execução de trabalho, aliás, sendo o trabalho físico, mormente ele mesmo produz calor, reduzindo a necessidade destes abrigos individuais.

Elucidativo o que escreve Landes (2003, p. 16): as experiências pessoais podem ser enganosas, pelo menos no que diz respeito às variações entre indivíduos. O que para uns é desconforto, para outros é prazer. No entanto, a lei da exaustão pelo calor aplica-se a todos, e poucas pessoas conseguem trabalhar a plena capacidade quando acaloradas e suadas. Eis o depoimento de um diplomata de Bangladesh recordando sua própria experiência e a de seus compatriotas ao visitarem regiões de clima temperado:

Em países como Índia, Paquistão, Indonésia, Nigéria e Gana, sempre me senti debilitado pelo menor esforço físico ou mental, ao passo que no Reino Unido, na França, Alemanha ou nos Estados Unidos, sempre me senti fortalecido e estimulado pelo clima temperado, não só durante longas permanências mas também nas breves estadas. E sei que todas as pessoas de regiões tropicais em visita a países temperados costumam ter uma experiência semelhante. Também vi centenas de pessoas da zona temperada sentirem-se debilitadas e exaustas nos trópicos, sempre que não se encontravam em ambiente com ar condicionado. Na Índia e em outros países tropicais, observei agricultores, operários e todos os tipos de trabalhadores manuais e de escritório trabalhando em ritmo lento, com longas e frequentes pausas para descanso. Mas na zona temperada, vi as mesmas classes de pessoas trabalhando com grande vigor e energia, e com muito poucas pausas para descanso. Conheço por experiência pessoal e pela experiência de outras pessoas de regiões tropicais na zona temperada que essa espetacular diferença em termos de energia e eficiência no trabalho não pode ser inteiramente ou mesmo principalmente devida a diferentes níveis de nutrição.

É Crosby (1993, p. 268) quem nos informa de outros fatores a favorecer o crescimento e desenvolvimento das sociedades a partir da agricultura quando ao explicar o expansionismo da Europa pelo planeta escreve:

Todas as Neo-Europas compreendem grandes áreas de altíssimo potencial fotossintético, áreas em que a quantidade de energia solar (luz do sol) disponível para a transformação de água e matéria inorgânica em alimento é tremenda. A quantidade de luz nos trópicos é, evidentemente, enorme, mas menor do que se poderia supor, em virtude da nebulosidade e das névoas decorrentes da umidade tropical e também por causa da duração invariável do dia durante todo o ano — não há nos trópicos aqueles intermináveis dias de verão. Esses fatores, aliados a outros (como as pragas e doenças tropicais e a escassez de solo fértil), tornam o potencial agrícola da zona tórrida inferior ao das zonas temperadas. Além disso, a maioria das plantas mais aptas a fazerem uso da luz intensa dos trópicos — plantas como a cana-de-açúcar e o abacaxi — contêm pouquíssima proteína, sem a qual a desnutrição é inevitável.

Por Neo-Europas, o autor se refere aos países colonizados pelos europeus, e que se projetaram no desenvolvimento, tornando-se semelhantes a ela, e que realmente compõem a maioria dos países ricos. Continua o mesmo autor (CROSBY, 1983, p. 268-269):

No cômputo geral, as zonas da terra mais ricas em potencial fotossintético encontram-se entre os trópicos e os 50 graus de latitude norte e sul. É lá que mais prosperam as plantas alimentícias com um ciclo ideal de crescimento de oito meses. E, nessas zonas, as regiões de solo fértil que recebem a maior abundância de luz solar e que também têm água na quantidade que os nossos principais produtos agrícolas exigem — as terras agrícolas mais importantes do planeta, em outras palavras — estão localizadas no centro dos Estados Unidos, na Califórnia, no Sul da Austrália, na Nova Zelândia e numa área européia em forma de cunha (a metade sudoeste da França e a metade noroeste da península Ibérica).

Mas para haver o desenvolvimento econômico, normalmente quantificado pelo Produto Interno Bruto (PIB), que é o crescimento da produção interna de determinado país ou região ao longo do tempo, computados nele toda produção de bens ou de serviços comercializáveis, excetuado os intermediários, além do fator terra, outros fatores de produção como capital e trabalho são imprescindíveis.

As questões até aqui apresentadas, apesar do reconhecimento de círculos viciosos e virtuosos, em função de feedback negativo ou positivo, que é sistêmico, situam-se mais no nível reducionista cartesiano, pois o pensamento sistêmico é não excludente, ou seja, não usa “ou/ou”, mas sim “e/e” (MARIOTTI, 2000). Baseados então no pensamento sistêmico em que todo fenômeno é multicausal, interdependente, retroalimentado, com interações recíprocas internas e externas (ambiente), pretende-se estudar o fator geográfico, como concorrente e não determinante, inter-relacionando-o com os demais em tudo que couber.

Jared Diamond (2010) diz que “os países de clima temperado são, em média, duas vezes mais ricos que os tropicais”

Acemoglu e Robinson (2012), já citados, contestam isto como regra, dizendo que, quando a América foi descoberta, o desenvolvimento e a densidade demográfica eram muito maiores na América Central e no norte da América do Sul do que na América do Norte.

Na realidade isto não contesta, mas reforça a comprovação, pois pela perspectiva sistêmica é necessário levar-se em conta o ambiente, o entorno inclusive histórico, como coloca Ian Morris (2013, p. 42): “As diferenças geográficas têm efeitos de longo prazo, mas estes nunca estão predeterminados, e o que conta como vantagem geográfica numa fase do desenvolvimento social pode ser irrelevante ou desvantajoso noutra.” O fenômeno conhecido como “gradiente latidudinal da biodiversidade” ainda estuda suas causas, mas o maior desempenho da natureza, tanto quantitativamente quanto qualitativamente nas áreas das latitudes mais baixas, ou seja, próximas ao equador, é inequívoco, excetuando-se evidentemente as áreas desérticas.

ACEMOGLU, D.; ROBINSON, J. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Trad. Cristina Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

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