RELIGIÃO

A emergência da mente e da consciência, singularidade específica da espécie humana, produz o reconhecimento das questões existências, como: Quem sou?; De onde vim?; Para onde vou?; Como surgiu o mundo?; Quem governa o mundo?; entre muitas outras.

Para responder ou pelo menos equacionar estas questões, surge em praticamente, todas as culturas e em todos os tempos as mais diferentes religiões. “A predisposição à crença religiosa é a força mais complexa e poderosa da mente humana e muito provavelmente constitui uma parte inextirpável da natureza humana.” (WILSON, 1981, p. 169).

Algumas outras características se podem depreender do que Stamos (2011, p. 274) escreve:

Se um antropólogo alienígena viesse de outro planeta para a Terra para estudar os humanos, ele não poderia deixar de se espantar com a quantidade de características que os separam de todas as outras criaturas da Terra. Uma delas é a ubiquidade de crenças e práticas religiosas, tanto no presente como ao longo da história humana. De fato, o mundo humano é repleto de religião. As religiões contam-se em muitos milhares, como quer que se defina o termo “religião” dentro do uso normal do termo. Esse número torna-se ainda maior se incluirmos cultos, o que se deve fazer, já que a única diferença real entre uma religião e um culto é o número de adeptos, e as que hoje são chamadas de “grandes religiões” começaram como pequenos cultos. Como tal, quase todos os humanos aderem a uma ou outra religião (ou culto). Além disso, quase todos os humanos acreditam que pertencem a mais verdadeira de todas as religiões, enquanto muitos acreditam que apenas a sua religião é a verdadeira religião e que todas as outras religiões são falsas. Mesmo aqueles que pertencem a religiões de espírito ecumênico acreditam em uma hierarquia de religiões, com sua religião no alto, o que é uma visão expressa, por exemplo, pelo Dalai Lama no tocante ao budismo (Cabezon, 1988). Adicionalmente, os humanos costumam investir tempo, energia e recursos materiais substanciais, e mesmo enormes, nas práticas de sua religião e com frequência estão dispostos a sacrificar a própria vida por ela. Tudo isso exige claramente uma explicação. Um problema em tentar oferecer uma explicação, em especial por uma perspectiva evolutiva, é que, como a maioria dos humanos é religiosa em algum grau significativo, eles terão dificuldade para se afastar de sua própria posição e enxergar a questão objetivamente. Mas isso é necessário para o tema.

Edgar Morin, que praticamente dedicou sua vida a compreensão e busca de soluções para a crise contemporânea, em uma de suas últimas obras “A via para o futuro da humanidade”, exime-se de abordar este tema, mas ao falar sobre a família, escreve:

A família tradicional era sacralizada não apenas por sua inserção na religião (batismo, casamento, enterro), mas também como modelo que sustentava toda a vida social. Sem dúvida alguma, não seria possível restaurar a antiga sacralidade da família, mas seria possível instaurar uma nova, sacralizando o amor, cimento dos casais modernos e, simultaneamente, da relação pais/filhos. A laicidade se faz acompanhar da perda da fé na Revelação Divina. Mas as necessidades de comunhão e de comunidade, de fé, de sagrado, permanecem no seio do universo laicizado. São elas que podem alimentar uma nova sacralização da família pela religação, pelo amor e pela compreensão. (MORIN, 2013, p. 360-361).

Apesar de ter sido há duas décadas, mais precisamente em 1981, Wilson (1981, p. 169) escreve:

Os céticos continuam a alimentar a crença de que a Ciência e o conhecimento  eliminarão a religião, que consideram não ser mais que uma teia de ilusões. Os mais nobres dentre eles estão certos de que a humanidade se desloca para o conhecimento através da logotaxia, uma orientação automática no sentido da informação, de tal sorte que a religião organizada deverá continuar seu recuo, do mesmo modo que as trevas antes do advento da aurora resplandecente do iluminismo. Essa concepção da natureza humana, porém, com raízes que chegam até Aristóteles e Zeno, jamais pareceu tão fútil como atualmente.

Não obstante de que a ciência trabalha no sentido de desacreditar a religião, levantando evidências contrárias as premissas religiosas, ressalta-se que:

Os homens, aparentemente, preferem acreditar ao invés de conhecer. Preferem ter o vazio como propósito — como escreveu desesperançosamente Nietzsche há muito tempo, quando a Ciência tanto prometia — do que serem vazios de propósito. (WILSON, 1981 p. 171).

É senso comum a percepção de que são muito mais saudáveis e vivem muito melhor, os indivíduos que têm propósitos, que tem objetivos, cuja vida tem um sentido, mesmo que eles sejam ilusórios, diferentemente dos indivíduos desprovidos ou vazios de propósitos ou objetivos, cuja vida não tem sentido.

Segundo Jared Diamond (2012, p. 344-361) é possível identificar sete funções básicas, mais ou menos proeminentes ao longo dos tempos, desde as eras pré-históricas:

Explicações. As explicações não só dos fatos e acontecimentos bem como da existência de todas as coisas, animadas ou inanimadas, foram consolidando-se e sendo uma função da religião. Com o advento do conhecimento secular ou científico, cuidando de explicar as coisas e fenômenos naturais, atribui-se a religião atualmente, a explicação das coisas não naturais, sobrenaturais ou metafísicas.

Ansiedade. Todas as coisas que fogem ao nosso controle ou são imprevisíveis tendem a gerar muita ansiedade. Eventos naturais, perigos diversos, doenças incuráveis, entre outras, costumam ter a ansiedade amenizada por orações ou outros rituais, inclusive não religiosos.

Conforto. Tanto a morte como as agruras da vida de modo geral são confortadas pela esperança da imortalidade da alma ou espírito, bem como de uma vida pós morte, em perfeição, livre de dores e sofrimentos, como o céu. Inclusive recompensas adicionais por martírios adicionais em obediência aos ditames religiosos, como sucumbir em luta contra os infiéis.

Organização. Com o crescimento dos grupos, a organização se tornou necessária. Grande parte desta necessidade hoje é suprida pelos estados ou poder civil, mas no início tudo coube a religião, que continua mantendo uma organização interna e muitas vezes também comunitária.

Obediência. Para manutenção da ordem bem como para o provimento das necessidades dos incumbidos de organizar e dirigir, evidentemente impossibilitados de produzir seu próprio sustento pela dedicação à organização, a principal argumentação da religião era o caráter divino de reis ou outras autoridades eclesiásticas, como representantes ou intercessores junto aos deuses, e, portanto, os súditos deveriam contribuir para o sustento dos mesmos. Além disto, como hoje ainda ocorre diversos serviços coletivamente necessários retornam destas contribuições, inclusive segurança proporcionada pela manutenção de exércitos.

Comportamento com estranhos. Inicialmente os grupos eram pequenos, praticamente todos parentes e todos se conheciam, e ocasionais encontros com estranhos, considerados então inimigos, cuja reação era matar ou fugir. A ampliação dos grupos constituiu debaixo de um mesmo chefe, grupos estranhos e não parentes, e a reação matar ou fugir já não era adequada. Tolerância devia ser observada, pois todos eram súditos do mesmo rei ou chefe. Eventuais discordâncias já não podiam ser resolvidas individualmente, por possibilitar a ampliação da violência pela aplicação da vingança, podendo levar a guerras tribais. Regras de moralidade surgem de cima para baixo, dos reis ou chefes, e a legitimidade é de novo calcada na representação dos deuses por estes exercidas.

Justificação da guerra. Não parentes eram inimigos e mata-los era natural. A moral com estranhos inibe esta atitude. Para justificar a guerra com reinos estranhos a religião usa então, não só a possibilidade, mas o dever de exterminar os infiéis, ou seguidores de religiões diferentes da sua. Como as religiões emergem e se constituem a partir das tribos, via de regra, outros povos acabavam constituindo religiões mais ou menos diferenciadas, dependendo do grau de isolamento existente entre eles.

A religião emerge e se modifica dentro da cultura e estas funções se tornam mais ou menos evidentes ou

Fonte: Diamond (2012, p. 367)

Com base neste quadro, o autor infere possibilidades futuras em função de dois cenários:

No primeiro cenário, considerando um futuro positivo, que a humanidade encontre um caminho de equilíbrio, melhorando a situação para a humanidade como um todo, inclusive na questão ambiental, os fatores um e quatro a sete continuariam declinando, mas os fatores dois e três continuariam ou se manteriam em alta, mas o suficiente para manter a religião, que não sucumbiria à ciência. Em um cenário negativo, com a condição social e ambiental continuando a se degradar, todas as funções tenderiam a recrudescer, talvez até mesmo a explicação sobrenatural, hoje já quase inexistente.

Além disto, Küng (2003, p. 7) escreve: “Não haverá sobrevivência sem uma ética mundial. Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. E sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões”.

Portando, a questão da religião não só depende dos cenários futuros, conforme inferido por Diamond, como concorre de maneira significativa para as possibilidades dos mesmos, e em consequência, a necessidade de se trabalhar por uma ética mundial é premente e ela só acontecerá a partir de um senso comum esclarecido também em relação às religiões.

DIAMOND, J. The world until yesterday: what can we learn from traditional societies? New York: Viking Penguin, 2012.

KÜNG, H. Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. Trad. Haroldo Reimer. São Paulo: Paulinas, 1993.

MORIN, E.A via para o futuro da humanidade. Trad. De Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

STAMOS, D. N. A evolução e os grandes temas: sexo, raça, religião e outras questões. Trad. Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

WILSON, E. O. Da natureza humana. Trad. Geraldo Florsheim e Eduardo D’Ambrosio. São Paulo: T. A. Queiroz: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1981

predominantes ao longo do tempo. O quadro abaixo do autor citado proporciona uma ideia desta evolução.

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