FAMÍLIA

A vida se perpetua pela reprodução de seus indivíduos. Esta reprodução pode-se dar de diferentes formas, desde a divisão celular, reprodução vegetativa, por sementes, por ovos ou por viviparidade. Em função do nível de reprodução, do nível de sobrevivência dos indivíduos gerados frente ao meio em função das competições inter e intraespecíficas se estabelecerá não só o nível populacional de determinada espécie, mas também a sua sobrevivência ou eventual extinção. Pela evolução, a maior ou menor inaptidão dos novos indivíduos pode ser equilibrada pela dispensa de maior ou menor auxílio por parte dos genitores a sua prole.

O ser humano é um ou o mais inapto a auto sobrevivência ao nascer. Um bezerro, por exemplo, em torno de 4 a 12 horas após o nascimento é capaz de levantar e ir em busca de alimento, inicialmente o leite materno. Além disto, andar, alimentar-se e reproduzir-se é a única coisa que ele precisa saber em toda a sua vida. Já o ser humano, em função da sua condição de racionalidade, cada vez mais necessária para a vida complexa em sociedades civilizadas, necessita de um longo período assistido para sua formação, aquisição de capacidade de autossustentação e reprodução.

É a família, ente cultural, que ao longo dos tempos vem realizando, com maior ou menor eficácia, o apoio aos novos indivíduos para sua completa formação. Inicialmente, a proteção física contra predadores e a disponibilização de alimentos eram condições suficientes, mesmo que precárias, para garantir a sobrevivência e crescimento demográfico da espécie, mesmo porque, a capacidade reprodutiva era alta, em muitas ocasiões superando a capacidade de sustentação do ambiente, propiciando um desleixo para com a prole, sobrevivendo os mais aptos, e em determinados momentos inclusive interferindo nesta seleção dos mais aptos pelo infanticídio. (MARTINS FILHO, 2011).

Segundo o mesmo autor (2011), este comportamento se modifica, especialmente por influência do cristianismo, valorizando a vida humana e estendendo esta valorização também as crianças, não só praticamente eliminando o infanticídio, mas disseminando a prática de maiores atenções e cuidados para com a prole. Contudo, estas práticas aliadas ao desenvolvimento técnico e científico, como o da medicina, acabaram contribuindo para um demasiado crescimento populacional, que além de ser um problema por si só, pela exaustão dos recursos físicos, criou outros decorrentes do convívio, que são mais de ordem psicológica e estão a intervir drasticamente neste convívio.

Os avanços científicos, da medicina, da psicologia, da psiquiatria e mais recentemente das neurociências, nos permitem um entendimento cada vez maior da formação integral do ser humano desde a sua concepção até a sua maturidade. A formação do seu temperamento, caráter e personalidade, desde a participação genética, passando pela interação psico-física com a mãe e com o ambiente por meio dela, direta ou indiretamente, ainda na fase uterina, e posteriormente ao parto, pelo contato que se inicia com a mãe e vai se ampliando até abarcar o mundo. (REICHERT, 2013).

Mais especificamente, Reichert (2013, p. 37,38) escreve:

Embora sejamos a mais racional das espécies, aquela que se diferencia das demais por ter desenvolvido o neocórtex, somos a que nasce com o cérebro mais inacabado entre os primatas. No nascimento, ele tem apenas 25% do seu peso final, enquanto os macacos, por exemplo, nascem com 60% do seu cérebro formado.

A maturação atrasada do sistema nervoso humano explica a morosidade no desenvolvimento da criança. Essa combinação significa que três quartos do nosso cérebro se desenvolvem fora do ventre materno e estão expostos diretamente ao ambiente externo. [...]

Após o nascimento, necessitamos de um útero psicológico para proteger a nossa suscetibilidade biopsicológica, até que sejam gestadas nossas outras partes em formação.

O reconhecimento tanto público como privado destas carências desencadeou a busca de alternativas. Contratação de babás, babás eletrônicas como a televisão, videogames, computadores, entre outras, creches, pré-escolas, escolinhas com atividades alternativas, artes marciais, natação, línguas, são algumas das alternativas rotuladas por Martins Filho (2011) como “criança terceirizada”. Complementarmente são alternativas perfeitamente válidas, mas quando são basilares, sua insuficiência tem sido a tônica, pois são extremamente pobres emocionalmente, característica intrínseca e extremamente importante do ser humano.

As mais diversas biopatias, ou seja, psicopatologias e doenças psicossomáticas, segundo Reichert (2013) podem advir de qualquer fase não adequadamente vivenciada. Na cultura atual, segundo Navarro (apud REICHERT, 2013, p. 321) apenas 1% possui caráter autoregulado, isto é, poderia ser considerado física e emocionalmente saudável.

Portanto, buscar um equilíbrio quantitativo e qualitativo da espécie humana é um desafio que recursivamente tem a família como ponto chave e estratégico. No entanto, é o próprio desequilíbrio que atesta a sua incapacidade, não só do presente como também do passado, senão não chegaríamos aonde chegamos. Carências de recursos materiais em umas, de conhecimento, disposição e disponibilidade em outras, ou ambas as carências, precisam ser superadas de forma recursiva por atitude e senso comum esclarecido.

MARTINS FILHO, J. A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo. 6. ed. Campinas: Papirus. 2011.

REICHERT, E. Infância, a idade sagrada: anos sensíveis em que nascem as virtudes e os vícios humanos. 4. ed. Porto Alegre: Vale do Ser, 2013.

Retângulo: Cantos Arredondados: SAUDÁVEL E SUSTENTÁVEL . ORG
Retângulo: Cantos Arredondados: Home
Retângulo: Cantos Arredondados: Tópicos
Retângulo: Cantos Arredondados: Contato

Reflexão e site em construção, aberto a críticas e sugestões, desde que, racional e sistemicamente construídas e/ou demonstradas. As futuras gerações agradecem pela contribuição.

Retângulo: Cantos Arredondados: Na rota do colapso civilizacional. Por que não mudamos de rumo?
Retângulo: Cantos Arredondados: Home
Retângulo: Cantos Arredondados: Tópicos
Retângulo: Cantos Arredondados: Contato

E-mail: ambiente@saudavelesustentavel.org