POLUIÇÃO SONORA

O som é inerente ao meio ambiente, interagindo e interferindo com todos os seres vivos, podendo ser agradável ou desagradável, quando pode inclusive provocar danos tanto físicos como mentais, situação em que é considerado então como poluição sonora.

Benites (2004 p.62), conceitua poluição sonora como:

“[...] qualquer alteração adversa das características ambientais causadas por um som ou ruído que direta ou indiretamente seja nocivo à saúde, à segurança ou bem-estar coletivo. Está ligada à noção de ruído pode ser definido como som que gera incômodo. Para chegar a seu verdadeiro nível de poluição sonora, é importante determinar o ruído de fundo, que é todo e qualquer som oriundo de uma ou mais fontes sonoras, que esteja sendo captado durante o período das medições e não provenientes de fonte objeto das medições.”

Mas ao se falar em poluição sonora, o aspecto mais considerado é o referente aos danos físicos, principalmente, ao aparelho auditivo. Estudos e normas são abundantes sobre o tema, inclusive ou especialmente, na área da medicina ocupacional.

Mas o som não atinge apenas o aparelho auditivo. Sendo uma onda que se propaga em diversos meios, inclusive o ar, todo o nosso organismo é atingido por esta onda.

Deste modo, Carneiro (2004, p.31-32) tece as seguintes considerações:

Importante notar que em muitos casos, as perturbações sonoras podem molestar, simultaneamente, o sossego, a saúde e a própria segurança dos vizinhos. Embora diversos trabalhos científicos indiquem níveis de ruído a partir dos quais se produzem danos objetivos à saúde das pessoas (tais como: lesões auditivas, alterações cardíacas e vasculares, etc), fato é que, afora os danos mais facilmente delineáveis, os inúmeros outros se inter-relacionam, como no caso dos ruídos que impedem o repouso, acabando por comprometer a saúde (pela ausência de recuperação de energias, dentre outras coisas) e a própria segurança do indivíduo (pela acentuada queda dos reflexos diante da ausência do descanso necessário, por exemplo, expondo-o a perigos inúmeros).

Dependendo das suas características e das peculiaridades do indivíduo atingido, diversas reações e implicações poderão delas derivar.

Um dos efeitos nocivos mais comum e conhecido refere-se ao prejuízo ocasionado ao sono. As modificações ocasionadas pelo ruído ao sono podem resultar em profundos danos fisiológico, psicológico e intelectual. (PIMENTEL-SOUZA, 2015b).

Outros efeitos diretos sobre o organismo e seus órgãos são elencados por Eduardo Murgel (2007, p. 46-51), inclusive por sons de baixa frequência captados pelos órgãos ocos do organismo, entre eles: diminuição da habilidade de concentração, alterações cardiocirculatórias, prejuízos à visão, alterações gastrointestinais, prejuízo no sistema imunitário, danos auditivos ao feto e pela redução da produção do lactogênio placentário prejudicando o crescimento, labirintite, além do dano generalizado produzido pelo stress, e ainda a condição de vício desencadeado pela produção hormonal de substâncias anestésicas e estimulantes, inclusive morfina endógena.

O conjunto de problemas desencadeados pelo ruído inevitavelmente prejudicam a atividade intelectual.

Mas existe ainda outro aspecto, cuja implicação é direta: “Os ruídos significativos (por exemplo, a palavra) interferem nas tarefas mentais complexas, mas podem atenuar os efeitos da monotonia em tarefas simples, repetitivas.” (LAVILLE, 1977).

 Este é o aspecto com implicações diretas no presente trabalho.

Também a assertiva de Pimentel-Souza (2015a) contribui para um melhor entendimento:

O ruído estressante libera substâncias excitantes no cérebro, tornando as pessoas sem motivação própria, incapazes de suportar o silêncio. Libera também substância anestesiante, tipo ópio e heroína, que provoca prazer, abrindo campo para o uso de fortes drogas psicotrópicas. As pessoas tornam-se viciadas, dependentes do ruído, paradoxalmente caindo em depressão em ambiente com silêncio salutar, permanecem agitadas, incapazes de reflexão e meditação mais profunda.

Algumas citações colecionadas por Murray Shaffer (1991, p.139-147) e elencadas sob o título de “esgoto sonoro: uma colagem”, especialmente as de Shopenhauer:

Há pessoas, é certo — mais que isso, há muitas pessoas que sorriem indiferentes a tais coisas porque não são sensíveis ao ruído; mas essas são exatamente as mesmas pessoas que também não são sensíveis à argumentação ou à reflexão, ou à poesia, ou à arte, em suma a nenhuma espécie de influência intelectual. A razão disso é que o tecido de seus cérebros é de uma qualidade muito grosseira e ordinária. Por outro lado, o ruído é uma tortura para pessoas intelectuais.

[...]

Se você cortar um diamante grande em pedacinhos pequenos, ele perderá completamente o valor que tinha como um todo; e um exército, se for dividido em pequenos grupos de soldados, perde toda a sua força. Dessa forma, um grande intelecto desce ao nível de uma inteligência comum assim que é interrompido e perturbado, sua atenção distraída do assunto em exame; pois sua superioridade depende de seu poder de concentração — de pôr em ação toda a sua força dirigindo-a para um único tema, do mesmo modo que um espelho côncavo reúne num único ponto todos os raios luminosos que incidem sobre ele.

[...]

O mais indesculpável e infame de todos os ruídos é o estalido de chicotes — uma coisa verdadeiramente infernal quando é feita nas ruas estreitas e ressonantes de uma cidade. Eu o denuncio por impossibilitar uma vida tranqüila; ele acaba com qualquer pensamento silencioso... Ninguém que tenha na cabeça qualquer coisa semelhante a uma idéia pode evitar uma sensação de verdadeira dor ao ouvir esse estalo estridente e repentino que paralisa o cérebro, despedaça o fio da reflexão e assassina o pensamento.

[...]

Há uma coisa ainda mais infame do que isso que acabo mencionar. Com bastante freqüência, pode-se ver um carroceiro andando pela rua, completamente só, sem nenhum cavalo, e ainda assim chicoteando incessantemente — de tanto que o infeliz se acostumou a isso em conseqüência da injustificável tolerância a essa prática.

[...]

Quantos pensamentos grandiosos e esplêndidos, eu gostaria de saber, perderam-se para o mundo por causa do estalar de um chicote? Se tivesse voz de comando, eu logo provocaria na cabeça dessas pessoas uma indissolúvel associação de idéias entre estalar um chicote e receber uma chicotada.

O senso comum esclarecido ou a democracia cognitiva não são conhecimentos superficiais, dada a complexidade a eles inerente e, portanto, necessitarão de ambiente adequado para sua consecução.

A interrupção das reflexões por eventual barulho poderá não simplesmente prejudicá-la, mas até inviabilizá-la, dependendo do grau de concentração do indivíduo.

O grau de abstração é variável nos indivíduos, possibilitando a alguns, elevados graus de concentração em que determinados ruídos não causam interrupção consciente, e, portanto, não são tão prejudiciais e estressantes como a outros, mas mesmo que não ocorra consciente interrupção o aproveitamento é sensivelmente prejudicado.

O psicólogo James Hillmann (2007) no filme/documentário “a última hora” declarou: “estamos mentalmente dormentes, nós entorpecemos os nossos sentidos da parte da manhã até a noite, seja com barulho ou música alta, ou luzes à noite”. Evidentemente isto contribui para a não percepção da gravidade da crise em que se está e da necessidade de mudança.

BENITES, E. L. F. Poluição sonora urbana de pelotas: uma análise do problema, com subsídios jurídicos, enfatizando a educação ambiental na construção da cidadania. Dissertação de mestrado. FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RIO GRANDE. Rio Grande, 2004.

CARNEIRO, W. de A. M. Perturbações sonoras nas edificações urbanas: ruído em edifícios, direito de vizinhança, responsabilidade do construtor, indenização: doutrina, jurisprudência e legislação I. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004.

HILLMAN, J. In: DICAPRIO, L. The 11th hour. (A última hora). Documentário cinematográfico. 2007.

LAVILLE, A. Ergonomia. Trad. Márcia Maria Neves Teixeira. São Paulo: EPU, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1977.

MURGEL, E. Fundamentos de acústica ambiental. São Paulo: Editora Senac  São Paulo, 2007.

PIMENTEL-SOUZA, F.A poluição sonora ataca traiçoeiramente o corpo. 2015a. Disponível em: http://labs.icb.ufmg.br/lpf/2-14.html. Acesso em 21 ago. 2015.

PIMENTEL-SOUZA, F. Efeitos da poluição sonora no sono e na saúde em geral – ênfase urbana. 2015b. Disponível em: <http://labs.icb.ufmg.br/lpf/2-1.html>. Acesso em 02 ago. 2015.

SCHAFER, R. M. O ouvido pensante. Trad. Maria Trench de O. Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva, Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1991.

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