A escola, bem como as demais instituições sociais que estão presentes na sociedade participam, formal ou informalmente, da formação e da educação dos novos seres humanos de forma complementar à família, ocasionalmente, mas não raro, de forma antagônica, como escreve Robert Ornstein (1991, p. 328-329):

Precisamos atualizar nossa educação, na escola, em casa e na mídia, explicando que nossa mente se preparou para o tigre, para reagir sem demora a emergências, quando as pequenas e lentas mudanças do mundo é que constituem as verdadeiras ameaças. A humanidade, seu desenvolvimento e seus limites, deveriam ser uma matéria escolar básica, a exemplo da geografia e outras.

Embora nossa tendência vá ser sempre nos adaptar a um mundo sem precedentes, se lutarmos para mudar a Terra, nossa mente em desenvolvimento “captará” boa parte das informações necessárias. Temos de educar nossos filhos para se identificar não mais com a tribo ou a família, mas com a humanidade em si. Ao invés de destacar países específicos, devemos lembrar que o planeta é um só, e chamar a atenção das crianças e adolescentes enquanto desenvolvem seu “papel adulto” na cultura, para o fato. Impõem-se agora um patriotismo global; não vários, locais. A mídia, se transferir o enfoque dos eventos sensacionalistas para os problemas crônicos, pode mudar a mente das pessoas.

Para analisar outro aspecto, repete-se as palavras de Mário Sérgio Cortella, (2005, p. 49):

A educação pode ser compreendida em duas categorias centrais: educação vivencial e espontânea, o “vivendo e aprendendo”, (dado que estar vivo é uma contínua situação de ensino/aprendizado), e educação intencional ou propositada, deliberada e organizada em locais predeterminados e com instrumentos específicos, (representada hoje majoritariamente pela escola, e cada vez mais pela mídia).

De uma maneira geral, poder-se-ia correlacionar a educação vivencial e espontânea, a preparação para as reações emergenciais com o saber do senso comum, doxa, e a educação intencional e propositada com o saber científico, episteme. A evolução sócio/cultural prestigiou sobremaneira o conhecimento científico, contrapondo-o ao senso comum, que em consequência não acompanhou esta evolução sócio/cultural, e a vida cotidiana ficou despreparada para a mesma. Desmitificar este antagonismo entre ciência e senso comum, aproximando teoria e prática, atualizadas em suas dimensões espaço/temporais, concorrerá para um senso comum esclarecido, necessário ao equacionamento dos problemas contemporâneos de complexidade crescente.

Outro aspecto controvertido da escola é seu papel conservador versus o papel inovador. (CORTELLA, 2005). Como instituição encarregada de repassar aos novos seres humanos informações sobre a sociedade em que nasceram e deverão passar a sua vida, a escola é, ou deve ser essencialmente conservadora. No entanto, detentores do poder, indivíduos, grupos ou classes, utilizam-se desta característica para reproduzir e justificar desigualdades e injustiças. Para combater esta prática, outros indivíduos ou grupos, defendem e estimulam o papel inovador da mesma, propondo uma escola crítica e reflexiva. (ALARCÃO, 2001).

O risco de distanciar novamente teoria e prática fica ampliado. Por exemplo, estimular na escola um convívio cooperativo enquanto no mundo real o que cresce cada vez mais é prática competitiva, inclusive predatória e a qualquer custo.

Evidentemente, a função conservadora, não deverá ser arcaica, excluindo práticas inovadoras de alta eficiência e de amplo uso.

Assim também, a inovação não deverá ser feita simplesmente pela inovação, pela simples competição, ou em atendimento a interesses pessoais ou de grupos, sem levar em consideração as consequências de amplo espectro espaço/temporal.

James Burke e Robert Ornstein (1999) com a fábula “O presente do fazedor de machados” nos advertem para as consequências de longo prazo que a maioria das inovações trouxeram para a humanidade, independente da utilidade e enormes benefícios proporcionados no curto e médio prazo.

A aproximação teoria e prática já esta bastante presente nas instituições escolares, mas voltada para o atendimento de especialização profissional, por exigência do mercado e que tende a acirrar ainda mais a competição, extremamente salutar ao mercado, mas também extremamente maléfica ao convívio social. (Penna, 1999).

Ampliando esta perspectiva Cortella (2005, p. 51) escreve:

Apesar de estarmos no final do século XX, o “inconsciente coletivo” do mundo ocidental parece estar ainda marcado pelo cientificismo preconceituoso do século passado. A literatura popular, a mídia, os livros didáticos, continuam reforçando a obsessão evolucionista que se apoia em pelo menos três grandes preconceitos: o Passado é sinônimo de atraso e ignorância inocente, a Verdade é uma conquista inevitável da racionalidade progressiva e a Ciência é instrumento de redenção da humanidade em geral.

Equilibrar as funções conservadora e inovadora, cuidando-se para primeiro cuidar da formação dos novos seres humanos, informando-os das características naturais e sociais em que estão começando a participar, para então alertá-los para as possibilidades de análise crítica devidamente embasada e com criteriosa avaliação de consequências, especialmente de médio e longo prazo, em se preparar para sua prática pelo exercício da cidadania.

ALARCÃO, I. (Org.). Escola reflexiva e a nova realidade. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Trad. Mauro W. Barbosa. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003.

BURKE, J.; ORNSTEIN, R. O presente do fazedor de machados: os dois gumes da história da cultura humana. Trad. Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

CORTELLA, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 9. Ed. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2005.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Sociologia Geral. 7. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 1999.

MORIN, E . A via para o futuro da humanidade. Trad. De Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

ORNSTEIN, R. A evolução da consciência: de Darwin a Freud, a origem e os fundamentos da mente. Trad. Carlos Eduardo Silveira Matos: Ieda Moriva. São Paulo: Editora Best Seller, 1991.

REICHERT, E. Infância, a idade sagrada: anos sensíveis em que nascem as virtudes e os vícios humanos. 4. ed. Porto Alegre: Vale do Ser, 2013.

SENGE, P. M. A quinta disciplina: arte, teoria e prática da organização de aprendizagem. Tradução Regina Amarante. 11.  ed. São Paulo: Best Seller, 1990.

EDUCAÇÃO

A educação, entendida como um processo de desenvolvimento da capacidade intelectual do indivíduo possui um significado tão amplo e abrangente que, em geral, abstrai de adjetivos. É um processo único, associado quase sempre à escola.

A educação com reconhecimento oficial, oferecida nas escolas em cursos com níveis, graus, programas, currículos e diplomas, costuma ser chamada de educação formal, ou seja, ela é realizada em um ambiente físico.

Embora a produção do conhecimento não se restringisse a instituições ou a lugares determinados, a transmissão regular e disciplinar de conhecimentos foi sendo, com o tempo, delegada à escola, ou melhor, à educação formal. Geralmente, é o que ocorre em todas as sociedades consideradas civilizadas.

Mas existem outras formas de educar que envolvem uma educação informal que refere-se a um processo educativo desenvolvido por associações de bairros, comerciais, industriais, organizações não-governamentais e até por instituições públicas de ensino, como os cursos de extensão universitária.

Como educação pode englobar-se todo o processo de aprendizado, tanto do senso comum, como científico e técnico profissional. É consenso concentrá-lo no início da vida possibilitando sua utilização durante a vida adulta. No entanto, Edgar Morin (2013, p. 204) adverte:

A evolução rápida dos conhecimentos torna necessária a reciclagem pós-escolar ou pós-universitária não apenas para os saberes especializados, mas também para os grandes problemas, como os da mundializaçáo, da ecologia, da economia etc.

Face a necessidade de um senso comum esclarecido para prover uma ética universal e esclarecida e tornar possível a operacionalização da democracia, como sistema “bottom up”, além de outros sistemas que compõem o viver humano cotidiano, a educação deveria tornar-se um processo permanente durante a vida toda.

Evidentemente, as capacidades, os interesses e as necessidades dos indivíduos mudam muito no decorrer da vida. Desta forma, a educação também deverá ter suas especificidades ao longo do processo. Um parâmetro norteador para atender as necessidades de um senso comum esclarecido, ao considerar uma vida de 100 anos, não muito comum, mas somente para um exemplo, poder-se-ia enfatizar o conteúdo do senso comum no início, começando com 100% ao nascer e chegando ao 0% aos cem anos.

Sendo o ser humano um “ser social” vivendo em grupos,

Necessita que as novas gerações se integrem nestes grupos e para isto é necessário que tomem ciência do acervo de conhecimentos, normas, valores, ideias, ideologias, procedimentos, folkways e mores, tradições, enfim, sua herança cultural. (LAKATOS; MARCONI, 1999, p. 221).

Seja qual for a conexão entre fazer e aprender, e qualquer que seja a validez da fórmula pragmática, sua aplicação à educação, ou seja, ao modo de aprendizagem da criança, tende a tornar absoluto o mundo da infância exatamente da maneira como observamos no caso do primeiro pressuposto básico. Também aqui, sob o pretexto de respeitar a independência da criança, ela é excluída do mundo dos adultos e mantida artificialmente no seu próprio mundo, na medida em que este pode ser chamado de um mundo. Essa retenção da criança é artificial porque extingue o relacionamento natural entre adultos e crianças, o qual, entre outras coisas, consiste do ensino e da aprendizagem, e porque oculta ao mesmo tempo o fato de que a criança é um ser humano em desenvolvimento, de que a infância é uma etapa temporária, uma preparação para a condição adulta.

Na perspectiva de um único mundo em que convivem crianças e adultos, grande parte da educação das crianças passa a ser naturalmente derivada do relacionamento entre estas e os adultos, e é tão expressiva que Albert Schweitzer pode sintetizar dizendo que “o exemplo não é a melhor forma de educar, é a única”.

No decorrer deste processo em que a criança vai conhecendo e reconhecendo este mundo e sua cultura, gradativamente vai percebendo a necessidade de inserir-se nele, responsabilizar-se também por ele e buscar contribuir, ampliando seu conhecimento e compreensão dos seus processos, cooperando para sua melhora, fazendo a sua parte e concorrendo para que os outros também o façam.

Poderia pensar-se que o desenvolvimento científico e tecnológico se tornaria mais lento se grande parte do espaço destinado a pesquisa e produção de conhecimento fosse destinado a tornar o senso comum mais esclarecido. No entanto, se levarmos em consideração o ganho resultante da minimização de conflitos disciplinares e consequente cooperação entre as disciplinas na produção de conhecimento, bem como, a não produção de conhecimento ou sua cuja aplicação o tornasse desalinhada em relação aos objetivos e aos princípios maiores da humanidade provocando consequências maléficas cuja correção demandaria tempo e recursos, possivelmente a demora seria totalmente revertida e eventualmente haveria até um possível ganho.

Não só o passo inicial na educação, bem como a responsabilidade pelos seguintes é da família progenitora, a quem também compete prover os recursos necessários para um bom desenvolvimento físico, sem o qual a educação e a consequente formação completa de um ser humano não irá acontecer.

Retornando ao aspecto da formação do ser humano, especialmente de seu cérebro, cuja maturação física vai se completar somente na puberdade (REICHERT, 2013, p. 38), fica evidente que, além da função conservadora, repassar aos jovens como o mundo é, e da função inovadora, despertá-los para percepção e busca de alternativas para o equacionamento de situações inadequadas do mundo atual, a educação de modo geral, em todas as suas instâncias, e a escola de modo particular, substituta ou complementar as funções próprias da família, deverá propiciar ambiente propício ao desenvolvimento físico dos mesmos, especialmente, de seus cérebros, sendo as emoções, componente deveras importante neste desenvolvimento.

Os conteúdos específicos, científicos ou técnicos, seriam agregados ao longo do tempo, sendo acrescidos ao senso comum esclarecido, mas não podendo se opor aos mesmos, devendo ser com ele coerentes. A disciplinaridade ou compartimentalização seria minimizada, senão eliminada, e a multi, inter ou transdisciplinaridade tornar-se-iam semelhantes, senão iguais, pois todas seriam cooperativas e complementares.

Ninguém teria a necessidade de saber tudo de tudo. Mesmo isto é impossível. Mas todos teriam a certeza de que tudo estaria concorrendo para um mesmo objetivo, nivelados e orientados que foram pelos objetivos e princípios comuns, a partir do senso comum esclarecido. Não só o conhecimento científico produzido pelos cientistas como a aplicação pelos técnicos ou pela população em geral seriam coerentes com estes objetivos e princípios. Isto evitaria a enormidade de consequências negativas que ações de um sistema hoje, causam sobre outros sistemas, ou seja, muitos problemas de hoje são consequência de soluções equivocadas ou não, de ontem, com diz Peter Senge (1990, p. 63): “Nós, muitas vezes, não atinamos com as causas dos nossos problemas quando, na verdade, bastaria olharmos para as soluções que demos a outros problemas no passado.”

A diversidade de conhecimentos e práticas, mas orientadas para um fim comum, pode ser melhor compreendida pela metáfora da orquestra, usada por Peter Senge. Os indivíduos ou grupos de indivíduos tocam instrumentos diferentes e partituras diferentes, mas o conjunto é harmonioso. Isto sem contar com os indivíduos que indiretamente contribuíram com as mais diferentes habilidades e conhecimentos, desde a composição da obra até o planejamento e construção do espaço acusticamente equilibrado, a feitura dos instrumentos e seu transporte, bem como todos aqueles denominados “carregadores de piano”.

Hannah Arendt (2003, p. 239) também coloca:

Na medida em que a criança não tem familiaridade com o mundo, deve-se introduzi-la aos poucos a ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para que essa coisa nova chegue à fruição em relação ao mundo como ele é. Em todo caso, todavia, o educador está aqui em relação ao jovem como representante de um mundo pelo qual deve assumir a responsabilidade, embora não o tenha feito e ainda que secreta ou abertamente possa querer que ele fosse diferente do que é. Essa responsabilidade não é imposta arbitrariamente aos educadores; ela está implícita no fato de que os jovens são introduzidos por adultos em um mundo em contínua mudança. Qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de tomar parte em sua educação.

Isto implica inclusive em minimizar a possível responsabilidade da criança em mudar um mundo que eventualmente o educador possa considerar errado, pois esta responsabilidade é do educador em conjunto com os demais adultos, com os quais direta ou indiretamente, pela sua participação ou omissão política, contribuiu para formar. Isto não implica isolar a criança, pois a mesma autora (ARENDT, 2003, p. 233) já havia exposto:

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