ÉTICA

Com a emergência da mente e da consciência, surge a percepção do ser humano da sua existência em interação com o ambiente em que se encontra. Explicar esta existência e pautar estes relacionamentos geram aquilo que se convencionou chamar de religião. Com a ampliação e complexificação dos conteúdos, a questão dos relacionamentos emerge como algo específico que se convencionou chamar de ética, e que extrapola o âmbito da religião e vai orientar comportamentos também entre aqueles que não compartilham crença religiosa alguma.

Dentro das religiões a ética se funda em normas derivadas de revelações divinas, de inspirações de místicos ou de conteúdos míticos surgidos ao longo dos tempos.

Com o advento da razão, as normas embasadoras da ética passaram a ser produtos da racionalidade humana, com as mais diversas orientações em função dos parâmetros a conduzir esta racionalidade.

Nesse sentido, se torna comum nestas concepções o sentimento de que o comportamento ético não é aquele que simplesmente se coaduna com as normas, mas sim aquele que emana da convicção de justeza destas normas, cujo descumprimento gera desconforto psicológico e emocional. Neste sentido, não há necessidade de norma expressa, pois o sentimento de justiça pode existir independentemente da existência de norma, ou baseado em uma norma dita natural ou inerente ao ser humano. No entanto, dada a heterogeneidade deste sentimento de justiça subjetivo, o estabelecimento de normas se faz necessário em busca de uma padronização mínima, não inibidora de comportamentos que a ultrapassem, desde que não a contrariem.

Sendo as normas produto da racionalidade humana, baseadas no conhecimento que se amplia e modifica ao longo da história da civilização, especialmente a ocidental, também a ética tem adquirido os mais diversos enfoques e aspectos.

Mas, apesar enorme produção teórica, a prática se torna cada vez mais incipiente. É Albert Schweitzer (s/d, p. 43) que assim se expressa:

Valerá, entretanto, a pena revolver de novo um campo arado mil e uma vezes? Ainda não foi dito tudo quanto se pode dizer a respeito da Ética? Não o expuseram anteriormente os Laotsé, Confúcio, Buda, Zaratustra, Amós, Isaías, Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, os estóicos, Jesus, Paulo, os pensadores do Renascimento, da Época das Luzes e do Racionalismo, Locke, Shaftesbury, Hume, Spinoza, Kant, Fichte, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche e outros? Haverá possibilidade de avançarmos além dessas concepções pronunciadas no passado, e que são tão contraditórias entre si, rumo a outras, novas, que tenham uma força mais intensa e mais duradoura? Será possível reunir toda a parte ética dos seus pensamentos numa ideia de Ética que concentre todas essas energias?

Sendo o comportamento ético coerente com as normas e leis, mas não obrigatoriamente delas derivado, a existência ou crescente necessidade de existência de leis a regular todas as atividades humana, inclusive os códigos de ética, podem demonstrar justamente a falta de ética contemporânea.

E possível depreender da citação acima que muito já se pensou, refletiu, escreveu e pregou sobre ética, mas a situação continua cada vez pior. Também é possível depreender que, apesar de em muitos casos estas reflexões serem complementares, em muitos outros acabavam sendo antagônicos, pois partiram de diferentes aspectos que denotavam diferentes interesses dos diferentes seres humanos.

Também Edgar Morin (2011b, p. 175) escreve:

Mas as exortações éticas, proclamadas isoladamente, são tão inúteis quanto as lições de moral; a regeneração ética só pode acontecer num complexo de transformação e de regeneração humanas, sociais e históricas. É nesse complexo que a regeneração ética pode contribuir com as outras reformas e que as outras reformas podem contribuir com a regeneração ética.

Para a efetivação da ética, portanto, Morin       (2011b, p. 168-169) vislumbra a necessidade de outras reformas, que para ele seriam:

As vias reformadoras seguidas no passado fracassaram todas, mas foram seguidas separadamente, excluindo-se umas às outras. Não seria possível trilhá-las em conjunto e fazê-las confluir? Precisaríamos esforçar-nos para conjugar numa mesma perspectiva reformadora a reforma da sociedade (que comporta a reforma da civilização), a reforma do espírito (que comporta a reforma da educação), a reforma da vida, a reforma ética, O conjunto dessas reformas engloba a tríplice identidade humana indivíduo/sociedade/espécie. Cada uma dessas reformas necessita das outras e as três primeiras comportam ou favorecem a reforma ética. Esta e as outras reformas são reciprocamente necessárias. A isso poderia somar-se a contribuição de uma ciência reformada.

A probabilidade de se conseguir realizar todas estas reformas simultaneamente é muito difícil aquilatar. Além de vários sistemas de grande porte e estabilidade, existe uma diversidade de crenças, não só religiosas, mas também em mitos seculares, tanto antigos como modernos, a exemplo do desenvolvimento, especialmente o econômico, como solução das desigualdades e melhoria das condições de vida de toda a humanidade, sendo a competição, outro mito, seu grande alavancador.

Mesmo que os sistemas complexos contenham características emergentes, diferentes das de suas partes constituintes, estas emergem a partir das partes e seus relacionamentos. É lógico deduzir-se que qualquer modificação nas partes e/ou nos relacionamentos deverá produzir mudanças no sistema.

A priori é difícil prevê-las, pois as interações das retroalimentações de equilíbrio ou de amplificação negativa e/ou positiva podem produzir resultados inclusive contraintuitivos. Mas aprofundados estudos e a disponibilidade da possiblidade de simulações que as modernas tecnologias da informática tornaram possíveis poderão contribuir para amenização da dificuldade de previsão de resultados.

Considera-se, portanto, coerente com o enfoque do presente trabalho, perfeitamente lógico e possível se obter todas as reformas acima elencadas interferindo-se com os seres humanos e seus relacionamentos, pois são eles as partes constituintes, direta ou indiretamente, de todos os sistemas envolvidos naquilo que se pretende reformar.

Evidentemente não se pretende reformar o ser humano, como se o mesmo contivesse um defeito de fabricação, mesmo porque isto já vem sendo tentado infrutiferamente a milênios.

A semelhança da natureza, sistêmica do átomo ao cosmos, bem como da própria humanidade, também composta de sistemas produzidos pelo homem, conscientemente planejados ou surgidos espontaneamente e podendo, portanto, produzir resultados não desejados, o que se busca é, aplicando-se as ferramentas do pensamento sistêmico, produzir sistemas capazes de contribuir com os seres humanos para superar aqueles atributos com os quais a evolução os dotou e que foram extremamente úteis a sua sobrevivência em um meio hostil em função da competição natural inter e intraespecífica, mas que hoje são obsoletos e extremamente prejudiciais pela completa mudança do meio, principalmente, produzida por ele mesmo, sendo que os fatores determinantes da sobrevivência se tornaram totalmente diferentes daqueles.

A emergência da humanidade decorrente do uso interativo de algumas mutações biológicas, andar ereto, disponibilizando as mãos para outros usos que leva a um polegar opositor funcional, cujo uso estimula o desenvolvimento do cérebro, amplia consideravelmente as capacidades dos indivíduos. Estas ampliações ampliam também as diferenças entre os indivíduos, e pequenas diferenças iniciais acabam se tornando grandes, tanto dentro como fora das espécies. Simples lideranças acabam se convertendo em mandantes, estabelecendo-se hierarquias de poder e mando. Os sistemas que emergem reproduzem e amplificam estas desigualdades, pois são produzidos e controlados pelos mais fortes. As características naturais que antes possibilitavam a mera sobrevivência e eram inclusive controladas também pelas capacidades dos outros seres conviventes do mesmo ambiente, agora produzem sistemas que são por estes mesmos indivíduos operados e controlados.

 

A natureza onde esta discrepância não ocorreu nos apresenta outra espécie de sistemas, os sistemas sem chefes, cuja operacionalização e controle se dá de baixo para cima, denominados “bottom up”, amplamente estudados e utilizados na computação. Estabelecidos os parâmetros, coerentes com os objetivos, é a interação entre os indivíduos, com controle e contracontrole recíprocos, que faz o sistema emergir, sem conter as discricionariedades peculiares dos indivíduos chefes e que contaminam os sistemas “top down”.

Parâmetros coerentes com objetivos, sua disseminação e principalmente, a sua aceitação, pois irão contrapor-se com muitas crenças, é possivelmente o maior obstáculo a efetivação desta prática. Todavia, sua superação poderá ocorrer justamente na interação dos indivíduos, a partir da base, fazendo parte desta interação, o pensar e refletir compartilhado e a consequente disseminação destes parâmetros básicos, que se entende dever fazer parte do que já se denominou senso comum esclarecido, semelhante ao que Edgar Morin (2011b, p. 151-153) denomina “democracia cognitiva” e que assim justifica:

As nossas sociedades enfrentam o problema, originário do desenvolvimento dessa enorme máquina em que ciência e técnica estão intimamente associadas naquilo que se chama agora de tecnociência. Essa enorme máquina não produz só conhecimento e elucidação, mas produz também ignorância e cegueira. Os desenvolvimentos disciplinares das ciências não trouxeram somente as vantagens da divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da hiperespecialização, do fechamento e da fragmentação do saber. Este último se tomou cada vez mais esotérico (acessível apenas aos especialistas) e anônimo (concentrado nos bancos de dados), sendo utilizado por instâncias anônimas, em primeiro lugar o Estado. Da mesma forma, o conhecimento técnico está nas mãos dos experts, cuja competência num campo fechado faz-se acompanhar de uma incompetência quando esse domínio é parasitado por influências exteriores ou modificado por um novo acontecimento. Em tais condições, o cidadão perde o direito ao conhecimento Resta-lhe obter um saber especializado por meio de estudos ad hoc, mas, como cidadão, perde todo ponto de vista englobante e pertinente. [...]. Há necessidade de uma tomada de consciência da urgência em trabalhar por uma democracia cognitiva.

Teoricamente difícil, mas não impossível, pois esta prática poderia ocasionar uma mudança radical na forma de vida da humanidade e de toda a vida no planeta, assemelhando-se a esperançosa metamorfose civilizacional augurada por Morin na obra citada.

MORIN, E.O método 6. Ética. Trad. Juremir Machado da Silva. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011b.

SCHWEITZER, A. Cultura e ética. Trad. Herbert Caro. São Paulo: Edições Melhoramentos, [s/d].

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