BOOF, L. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Ed. 22. Petrópolis: Vozes, 2010.

CORTELLA, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 9. Ed. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2005.

GERMANO, M.G. Uma nova ciência para um novo senso comum. Campina Grande: EDUEPB, 2011. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/qdy2w/pdf/germano-9788578791209.pdf>. Acesso em 18 abr. 2015.

SENSO COMUM ESCLARECIDO

Quando abordou-se a questão dos sistemas naturais “bottom up”, observou-se que o comportamento rotineiro baseado na ignorância dos indivíduos era a garantia da estabilidade do sistema. A ignorância tornava os indivíduos “certos” para o sistema. Também já se observou que seres humanos são diferentes de formigas e nascem com capacidades intelectivas que os tornam não ignorantes, e o uso destas capacidades intelectivas tende a desestabilizar os sistemas do qual fazem parte. Como manter a estabilidade dos sistemas sem anular as capacidades intelectivas dos seres humanos?

O agir rotineiro e uniforme resultante da ignorância, deverá ser conseguido por reconhecimento consciente desta necessidade e pela uniformidade derivada de uma ética universal pautada em um conhecimento básico também universal, algo como “senso comum esclarecido”.

O senso comum, esclarecido e constantemente ampliado, especialmente pela ciência, transmitido às gerações novas e disseminado entre as contemporâneas pela educação formal e informal, especialmente pelo exemplo, embasará entre outras coisas, tais como, a própria produção de conhecimento científico, a produção de parâmetros que comporão a base de uma ética universal que norteará os relacionamentos capazes de produzir e manter uniforme um sistema “bottom up”, que orientará a convivência tanto intra como inter específica.

Sobre o senso comum, Boaventura Souza Santos (2002, p. 55-56) escreve:

[...] é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas ações, e damos sentido à nossa vida. A ciência moderna construiu-se contra o senso comum que considerou superficial, ilusório e falso. A ciência pós-moderna procura reabilitar senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador, mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico. Essa dimensão aflora em algumas das características do conhecimento do senso comum.

O senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente na ação e no princípio da criatividade e da responsabilidade individuais. O senso comum é prático e pragmático, reproduz-se colado às trajetórias e às experiências de vida de um dado grupo social e nessa correspondência se afirma fiável e securizante. O senso comum é transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objetivos tecnológicos e do esoterismo do conhecimento em nome do princípio da igualdade do acesso ao discurso, à competência cognitiva e à competência linguística. O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas que estão para além da consciência, mas, por isso mesmo é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática, especificamente orientada para produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privilegia a ação que não produza rupturas significativas no real. Por último, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, persuade.

Pode-se depreender do texto que apesar da ciência moderna ter-se construído a partir do senso comum, repudiou-o, por estar o mesmo mesclado e repleto de mitos, superstições conhecimentos superficiais equivocados, incoerentes com o pensamento e a prática científica.

Já a ciência pós moderna, mais utopia do que realidade até o momento, tenderia a reabilitar o senso comum. Esta temática é amplamente abordada pelo autor citado, em sua obra “Introdução a uma ciência pós moderna” (SANTOS, 2003, p. 41), em que defende uma segunda ruptura para quebrar os efeitos da primeira ruptura que isolou ciência e senso comum:

[...] a dupla ruptura procede a um trabalho de transformação tanto do senso comum como da ciência. Enquanto a primeira ruptura é imprescindível para constituir a ciência, mas deixa o senso comum tal como estava antes dela, a segunda ruptura transforma o senso comum com base na ciência. Com essa dupla transformação pretende-se um senso comum esclarecido e uma ciência prudente, ou melhor, uma nova configuração do saber que se aproxima da phronesis aristotélica, ou seja, um saber prático que dá sentido e orientação à existência e cria o hábito de decidir bem.

Jungen Habermas (2004, p.140,1), corrobora ao escrever que:

[...] o senso comum, que cria para si muitas ilusões a respeito do mundo, precisa poder ser esclarecido sem reservas pelas ciências. Contudo, as teorias científicas que se infiltram no mundo da vida deixam essencialmente intacto o âmbito do nosso saber quotidiano, o que dificulta nossa autocompreensão, enquanto seres capacitados para a linguagem e para a ação. Quando aprendemos algo novo sobre o mundo e sobre nós enquanto seres no mundo, o conteúdo da nossa autocompreensão se modifica.

A quantidade de conhecimento vem crescendo enormemente, tornando impossível aos próprios cientistas conhecer o conhecimento de seus pares. Nesta perspectiva, Marcelo Gomes Germano (2011, p. 352,3) defende a popularização da ciência, que seria uma forma de tornar o senso comum esclarecido, escreve:

No contexto atual, o domínio de conhecimentos gerais é completamente impossível, e mesmo em áreas restritas, é difícil abarcar a quantidade e velocidade dos novos conhecimentos. Desse ponto de vista, os cientistas não são diferentes do povo, exceto em suas especialidades básicas; e mesmo nestas, cada vez mais ignoram as novas especificidades que vão sendo desenvolvidas. Em um sentido mais profundo, os cientistas ignoram muito da ciência que seus colegas praticam. Snow (1995) já havia chamado a atenção para este fato quando percebeu o estranhamento entre as chamadas ciências naturais e as ciências humanas. Infelizmente o isolamento e a dificuldade de comunicação e diálogo tornaram-se marcantes e crescentes entre os próprios cientistas. Nesse caso, como escreve Lévy-Leblond (2006), haverá necessidade de incluir a própria comunidade científica no processo de comunicação pública da ciência.

Tanto mais impossível será ao senso comum abarcar esta gama de conhecimentos. Necessário, pois, se faz, identificar que conhecimentos básicos seriam necessários a este senso comum esclarecido e que o tornariam apto a produzir uma ética capaz de orientar os indivíduos na construção e condução de sistemas “bottom up”.

Vejamos o que Leonardo Boff (2010, p. 25-27) nos esclarece sobre o conhecimento necessário para equilibrar o simbólico e o diabólico:

Para alcançarmos sabedoria que nos ofereça alguma luz sobre a conexão diabólico e simbólico da realidade, importa:

Em primeiro lugar, tirar o ser humano de seu falso pedestal e de sua solidão onde se autocolocou: fora e acima da natureza. É seu antropocentrismo ancestral e seu individualismo visceral. Ele interexiste e coexiste com outros seres no mundo e no universo. Ele precisa reconhecer esse vínculo de solidariedade cósmica e inserir-se conscientemente nela. A centralidade em si mesmo — antropocentrismo — é sinal de arrogância e de falsa consciência. Em primeira instância, nós somos para a Terra. Somente a partir daí, a Terra é para nós.

Em segundo lugar, importa devolver o ser humano à comunidade dos humanos. Descobrir a família humana, o sentimento de solidariedade, de corresponsabilidade, de familiaridade, de intimidade e de subjetividade. Hoje a planetização se realiza em sua idade de ferro, sob o mercado competitivo e não cooperativo. Por isso faz tantas vítimas. Mas ele cria as precondições materiais para novas formas de planetização: a política, a ética, a cultura e outras. Oferece a base imprescindível para uma nova etapa da hominização: a etapa planetária, da consciência da espécie e da única sociedade mundial. A ela se ordena, quer queira quer não.

Em terceiro lugar, importa passar da humanidade à comunidade dos seres vivos (biocenose). O ser humano precisa desenvolver veneração, respeito, piedade, compaixão para com todos os seres que sentem e sofrem. Cruel e desumano é matar crianças e torturar animais. É falta de compaixão manter vacas confinadas, num estreitíssimo cubículo, com alimentação quimicamente balanceada, para que se transformem em fábricas de carne. Dramático, entretanto, é perder a piedade para com a vida humana e compaixão para com todos os que sofrem. Sem essas atitudes, nada será impossível, nem guerras nucleares, nem colapsos ecológicos, nem a autodestruição da espécie homo. Importa defender a vida, os valores da vida e uma política orientada para a salvaguarda e desenvolvimento integral da vida.

Em quarto lugar, urge passar da comunidade dos seres vivos (biocenose) à Terra, entendida como Grande Mãe, Gaia e superorganismo vivo. O ser humano é filho e filha da Terra. Mais ainda, é a própria Terra que em sua evolução chegou ao estágio de consciência reflexa, de amorização, de responsabilização e de veneração do Mistério.

Em quinto lugar, importa passar da Terra ao cosmos. O que o ser humano é em relação à Terra (a consciência e o amor), é a Terra em relação ao cosmos. Um dos lugares, quem sabe, entre outros milhões e milhões onde irrompeu reflexamente o Espírito e a Consciência e o Amor incondicional. A Terra é um dos cérebros e um dos corações do cosmos por nós conhecido.

Por fim, urge passar do cosmos ao Criador. Cabe ao ser humano decifrar o Mistério que perpassa e subjaz a todos os seres e a todo o universo. O homem/mulher moderno que passou pela universidade é geralmente agnóstico. Tem dificuldade em crer. E, quando crê, tem dificuldade em mostrar sua fé. Diferentemente se comportava o ser humano de outras etapas da evolução. Ele sabia dar ao Mistério mil denominações. Fazer-lhe festas, celebrar-lhe o advento. Enfim, o ser humano se descobria e se descobre ainda hoje um ser espiritual, filho e filha de Deus, Deus mesmo por participação.

Não só o conhecimento deste cabedal de informações, bem como o seu reconhecimento como necessário e imprescindível, e também a disposição para assumir o ônus decorrente de sua aplicação é o desafio a ser ultrapassado.

Mario Sérgio Cortella (2005, p. 49) coloca que “[...] o principal canal de conservação e inovação dos valores e conhecimentos são as instituições sociais como a família e a Igreja, o mercado profissional, a mídia, a escola etc” e complementa com:

[...] a Educação pode ser compreendida em duas categorias centrais: educação vivencial e espontânea, o “vivendo e aprendendo” (dado que estar vivo é uma contínua situação de ensino/aprendizado), e educação intencional ou propositada, deliberada e organizada em locais predeterminados e com instrumentos específicos (representada hoje majoritariamente pela Escola e, cada vez mais, pela mídia). (destaques do autor).

No entanto, tanto a maioria dos seres humanos como as suas instituições vivem em função de e dependem do mercado, cujos interesses não são coincidentes com os inerentes ao conhecimento que se deseja disseminar e implementar.

O mercado é um sistema “bottom up”, organizado de forma praticamente espontânea, mas com objetivos e princípios frouxos ou equivocados, e, em consequência, os parâmetros de ação dos indivíduos ou organizações que o compõem são maleáveis, tornando-se frequentemente equivocados também. No entanto, sua característica sistêmica o permite crescer e fortalecer-se, tornando infrutíferas as ações de combate frontais, se partidas de indivíduos ou instituições menores, ocasionando inclusive efeito adverso, ou seja, fortalecendo-o. 

Desta forma, torna-se necessário buscar alternativas de propagação dos conhecimentos e práticas necessários ao estabelecimento de um senso comum esclarecido, sem desperdiçar energia em embates inócuos.

Não só entre tribos selvagens como também nos primórdios da civilização, ainda em tribos, mas também em estados constituídos, o papel dos anciãos, individualmente ou em conselhos era extremamente importante e efetivo. Os êxitos imediatistas das técnicas científicas na produção de tecnologias capazes de facilitar a vida quotidiana em seu aspecto formal e material, possibilitaram aos conhecimentos teóricos sobrepujarem a prática e a experiência, e os mais velhos, os anciãos, foram perdendo importância, e cada vez mais são considerados não só como velhos mas até como ultrapassados.

Não se trata de saudosismo, mas do aproveitamento desta força disponível, normalmente aposentados, não mais submetidos ao mercado competitivo, a não ser como consumidores, e portando disponíveis para, adequadamente esclarecidos, contribuírem para tornar o senso comum mais esclarecido e possibilitarem a ação em pontos estratégicos, de alta alavancagem, buscando a consolidação de sistemas capazes de contribuir para um reequilíbrio da vida no planeta e possibilitar a perpetuação da espécie humana.

Não necessariamente a partir dos anciãos, mas podendo ser a partir deles, instituições menos compromissadas com o mercado, como ONGNs, igrejas, clubes e associações, podem ser engajadas a contribuir com o processo, podendo tornarem-se inclusive, laboratório para a prática de vivências baseadas nos sistemas “bottom up”, permitindo um melhor entendimento do mesmo e consequente aprimoramento.

O conhecimento do senso comum esclarecido é um conhecimento persuasivo, conforme Santos em citação anteriormente colocada. A ética, elemento essencial na coordenação das partes com vistas à manutenção dos objetivos e princípios orientadores, formada a partir deste conhecimento persuasivo, deverá ser também uma ética persuasiva.

Além de persuasiva, a amplitude do conhecimento do senso comum ensejará uma ética universal, fundamental na redução dos conflitos na definição de objetivos e princípios e eventual eliminação de antagonismos, ou pelo menos sua redução.

A civilização é uma cultura mundial, (   QUINN, S/D, p. 11) apesar das diferentes sub-culturas, e como tal também um sistema “bottom up”, como o mercado que a integra, bem como de outros sub-sistemas “bottom up” ou “top down”, ou uma combinação em variadas proporções, organizações mais ou menos democráticas, além dos indivíduos. A ausência de princípios ou parâmetros norteadores torna a emergência destes sistemas aleatória e instável, como nos sistemas distantes do equilíbrio, com possível ruptura e bifurcação completamente imprevisíveis.

Dada a sua dimensão e sua característica “bottom up”, ações antagônicas frontais ou “top dowm”, serão inócuas e condenadas ao fracasso. Se quisermos evitar uma catástrofe, plausível a partir de uma possível bifurcação, deve-se atuar a partir da base, sobre os indivíduos ou sistemas componentes, realinhando-os com princípios e parâmetros norteadores em função de objetivos definidos a partir de um senso comum esclarecido.

HABERMAS, J. O futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia liberal? Trad. Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

QUINN, Daniel. Além da civilização: a próxima grande aventura da humanidade. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Peirópolis ,S/D.

SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. 13 ed. Porto: Afrontamento, 2002.

SANTOS, B. de S. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 2003.

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