BOTTOM-UP

De forma simplificada pode-se dizer que bottom up são sistemas de baixo para cima, como os processos democráticos, teóricos, pois os práticos dificilmente coincidem com as teorias, em que, informações, ações/decisões, fluem da base para o topo, de forma flexível, e as caraterísticas do sistema refletem a complexidade da base. Já top down são sistemas de cima para baixo, como os ditatoriais, com hierarquias rígidas e inflexíveis, com as características derivando da vontade de uma só pessoa, ou eventualmente de um grupo, mas mesmo nestes casos a tendência é de que, dentro do grupo, haja uma forte liderança a definir a vontade do grupo.

Na natureza, ressalvadas as subjetividades e antropomorfismos de cada observador, há ocorrência de uma ampla gama de situações. Indivíduos vivendo solitariamente, eventualmente acasalando; indivíduos vivendo em relações de casal mais duradouras; e indivíduos vivendo em grupos. Quando em grupos, há também diversidade de situações. Há grupos com liderança dominante, normalmente um macho dominante, sendo a dominação transitória e normalmente em função da procriação. Há também, principalmente entre os insetos, denominados de insetos sociais, a ocorrência de grupos constituídos em torno de um indivíduo progenitor, denominado rainha, que define início e fim do grupo, mas não exerce dominação sobre o mesmo.

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Retângulo: Cantos Arredondados: Na rota do colapso civilizacional. Por que não mudamos de rumo?

Nas sociedades humanas, que com a emergência da mente produziu indivíduos capazes de ampliar pequenas diferenças biológicas, o instinto de dominação possibilitou o surgimento de sistemas com lideranças dominantes, ou seja, sistemas top-down, e com dominação se perpetuando e amplificando pela transmissão hereditária/cultural. A predominância e sua perpetuação pela cultura conduz nossa mente a considerá-los como a alternativa natural de ser das coisas, sendo considerado caos as situações em que tal sistema top down seja inexistente. Ressalte-se que a característica humana de sapiens/demens, simbólico/diabólico, egoísta/altruísta, bom/mau, racional/irracional, concomitantemente presentes, tornam os sistemas instáveis, sujeitos inclusive a colapsos, diferentemente do sistema natural, cuja estabilidade vem se mantendo ao longo dos tempos.

Dee Hock (2006) defende a ideia da possibilidade de ordem em sistemas não top down e denomina-os de caórdicos, ou seja, ordenados, mesmo que aparentemente sejam considerados caóticos. Além da teoria, é com esta perspectiva que ele constrói a Visa Internacional, uma das grandes administradoras de cartões de crédito da atualidade.

Sistemas culturais espontâneos, tais como o mercado e a própria sociedade, são analisados e classificados como sistemas em rede, como em “Sociedade em rede” de Manoel Castells.

No entanto, o estudo sistemático e metódico mais amplo, realizado também a partir de sistemas culturais, como a formação das cidades, mas com ênfase nos sistemas sociais naturais dos insetos, como formigas e abelhas, e no comportamento do organismo semelhante a uma ameba, o Dictyostelium discoideum, e considerando especialmente as experiências realizadas por simulação computacional, é feito por Steven Johnson em “Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares”, conforme texto abaixo:

Se você está construindo um sistema elaborado para aprender a partir do nível mais baixo, um sistema onde a macrointeligência e a adaptabilidade advêm de conhecimento local, há cinco princípios fundamentais a serem seguidos. As formigas forrageadoras de Deborah Gordon mostram todos eles em funcionamento:

Mais é diferente. Na realidade, esse velho lema da teoria da complexidade tem dois significados relevantes para nossas colônias de formigas. Primeiro, a natureza estatística da interação das formigas demanda que haja uma massa crítica para produzir registros confiáveis de seu estado global. Dez formigas andando solitárias não serão capazes de julgar com precisão a necessidade geral de forrageadoras ou construtoras de ninhos, mas duas mil farão esse trabalho admiravelmente. A frase “Mais é diferente” também se aplica à distinção entre micromotivos e macrocomportamento: individualmente, as formigas não “sabem” que estão priorizando determinados caminhos entre diferentes fontes de alimento quando deixam um gradiente de feromônio perto de uma pilha de sementes nutritivas. De fato, se estudássemos as formigas isoladas, não teríamos como perceber que essas secreções químicas são parte de um esforço global para criar uma linha de distribuição em massa e levar para o ninho quantidades de alimento comparativamente colossais. Somente pela observação de todo o sistema em ação é que o comportamento global se manifesta.

A ignorância é útil. A simplicidade da linguagem das formigas — e a relativa estupidez de cada uma — é, como dizem os programas de computadores, uma característica, e não um defeito. Sistemas emergentes podem ficar fora de controle quando suas partes componentes se tornam excessivamente complicadas. É melhor construir um sistema com elementos simples densamente interconectados e deixar que comportamentos mais sofisticados ocorram aos poucos (essa é uma das razões por que os chips de computador trafegam na ágil linguagem de zeros e uns). Ter agentes individuais capazes de estimar diretamente o estado global do sistema pode ser uma real deficiência na lógica do enxame; pela mesma razão, ninguém deseja que um neurônio de seu cérebro de repente se torne consciente.

Encoraje encontros aleatórios. Sistemas descentralizados como o das colônias de formigas baseiam-se fortemente nas interações aleatórias de indivíduos explorando determinado espaço sem qualquer ordem predefinida. Seus encontros com outras formigas são arbitrários, mas, por haver tantos indivíduos no sistema, esses encontros acabam por permitir aos indivíduos aferir e alterar o macroestado do próprio sistema. Sem esses encontros que acontecem ao acaso, a colônia não seria capaz de tropeçar em novas fontes de alimento ou de se adaptar a novas condições ambientais.

Procure padrões nos sinais. Embora as formigas não necessitem de um extenso vocabulário e sejam incapazes de formulações sintáticas, elas se baseiam firmemente nos semioquímicos que detectam. Um gradiente em uma trilha de feromônio leva-as a uma fonte de alimento, enquanto encontrar uma grande quantidade de construtoras de ninho em relação ao número de forrageadoras leva-as a trocar de tarefa. Essa aptidão para detectar padrões permite a circulação de metainformação para o âmago da colônia: sinais acerca de sinais. Farejar o feromônio deixado por uma simples formiga forrageadora pouco significa, mas farejar as trilhas de feromônio de cinqüenta forrageadoras no espaço de uma hora fornece informação sobre o estado global da colônia.

Prestar atenção nos vizinhos. Essa pode ser a mais importante lição que as formigas nos dão e a de maiores conseqüências. Pode-se também reformular a frase dizendo: “Informação local pode levar à sabedoria global.” O principal mecanismo da lógica do enxame é a interação entre formigas vizinhas no mesmo espaço: formigas tropeçando umas nas outras, ou nas trilhas de feromônio de outras, enquanto patrulham a área em volta do ninho. O acréscimo de formigas ao sistema global irá gerar maior interação entre vizinhos e conseqüentemente permitirá à colônia resolver problemas e se ajustar com mais eficiência. Se as formigas não topassem umas com as outras, as colônias seriam somente um conjunto sem sentido de organismos individuais — um enxame sem lógica.

O modo de vida tribal, apresentado por Jare Diamond e defendido por Daniel Quinn como alternativa possível para evitar o colapso civilizacional apresentam comportamentos com parâmetros bastante similares aos acima descritos.

No entanto, nas sociedades animais, especialmente as dos insetos, e nas sociedades humanas primitivas, estes padrões de comportamento surgiram espontaneamente, derivados primordialmente de mutações biológicas mas sobreviveram aqueles que apresentaram melhores resultados para a sobrevivência de grupos e espécies. Seleção natural pela adaptabilidade ao todo, que de forma eventualmente coercitiva, culturalmente cruel, perenizou a vida, pelo nascimento, reprodução e morte dos indivíduos, suas partes.

Já nas sociedades humanas contemporâneas, além de já estar se produzindo mutações biológicas intencionais, também as mutações culturais, portanto também intencionais, têm grande influência, e como já visto, os seres humanos já não estão mais sujeitos a seleção natural. Desta forma é muito pouco provável que a simples transposição dos parâmetros que funcionaram no passado seja suficiente para resolver a crise civilizacional das sociedades contemporâneas.

Mas, será que a mesma característica que alçou os seres humanos para fora do sistema natural pela produção de enormes poderes, não seja capaz de produzir um sistema cultural com capacidade de controlar estes enormes poderes, possibilitando usufruir-se de seus benefícios mitigando seus malefícios?

Joël de Rosnay escreve (1997, p. 386):

Integrar a humanidade em algo maior do que ela. Criar um ser planetário de um nível superior de organização, um ser que seja uma emergência da ação dos homens e, em retorno, seja capaz de construí-los. Participar conscientemente das novas origens da vida. Eis, talvez, um dos maiores desafios do futuro para a espécie humana.

E para tanto apresenta as “Dez regras de ouro do homem simbiótico”:

Estas dez regras resumem e procuram tornar viáveis os princípios fundamentais apresentados no decorrer deste livro. Cada um poderia, assim, traduzi-los em ações, estratégias e políticas em diferentes níveis de organização da sociedade.

1. Fazer emergir a inteligência coletiva: numerosos agentes que obedecem a regras simples, e ligados por redes de comunicação, podem resolver coletivamente problemas complexos. A inteligência coletiva é catalisada pelas interconexões, criatividade individual, aceitação de regras e códigos, participação em um projeto de conjunto, transmissão de uma cultura.

2. Fazer coevoluir as pessoas, sistemas e redes: as relações que se estabelecem no quadro de uma coevolução entre indivíduos, organizações e máquinas favorecem as adaptações mútuas de estruturas e funções. O ajuste e a regulação das evoluções por um conhecimento mais profundo da dinâmica dos sistemas, assim como a sincronização e coordenação das operações, criam condições favoráveis a uma coevolução.

3. Garantir simbioses em diferentes níveis de organização da sociedade: inspirando-se em mecanismos naturais da simbiose, convém procurar as condições que favoreçam o equilíbrio e desenvolvimento harmonioso de associações constituídas para benefício mútuo dos parceiros. Por exemplo, graças à distribuição das tarefas segundo as competências, à economia dos metabolismos ou à partilha das redes de comunicação.

4. Construir organizações e sistemas por camadas funcionais sucessivas: uma das regras de base da evolução biológica é a estratificação das estruturas e das funções. Se um sistema funciona corretamente em seu nível e confere ao organismo (ou organização) uma vantagem evolutiva, é conservado pela seleção natural. Em vez de construir de novo sistemas complexos que implicam homens, máquinas e redes a partir unicamente dos planos dos engenheiros, convém fazê-los crescer e complexifica-los por empilhamento de funções e estruturas interdependentes. Se um subconjunto é satisfatório, a camada superior é construída a partir dessa base.

5. Garantir a regulação dos sistemas complexos por um controle descendente (hierárquico) e ascendente (democrático): as microiniciativas não coordenadas podem levar à anarquia; as diretrizes impostas de cima, à ditadura. O compromisso necessário à governança do futuro baseia-se na complementaridade entre controle descendente (top-down) e ascendente (bottom-up). O primeiro garante as grandes orientações simbióticas, tais como a manutenção e desenvolvimento das parcerias; o segundo faz emergir a inteligência e a criatividade coletivas.

6. Pôr em prática as regras da subsunção: a arte da subsunção consiste em integrar a individualidade em “algo maior do que a própria pessoa” para que esta tire partido de tal situação e dê sentido à sua existência. Ao abandonar uma parte do individualismo (ou soberania) que inibe as relações entre as pessoas e entre as nações, torna-se possível criar associações simbióticas equilibradas. Cada um se beneficia de regras reconhecidas por todos e, assim, pode ter acesso a um nível superior de liberdade e responsabilidade.

7: Saber manter-se à beira do caos: a simulação em computador da auto-organização de sistemas complexos e respectiva evolução no tempo faz sobressair a importância de uma fase de transição entre a turbulência estéril e a ordem rígida. Á arte da condução de tais sistemas baseia-se na capacidade do piloto em mantê-los “à beira do caos”, isto é, em equilíbrio entre a Caribde da desordem e a Cila da esclerose. E nessa zona frágil e instável que podem surgir as estruturas, funções e organizações do mundo de amanhã, O segredo de tal pilotagem: aceitar os riscos da mudança, embora conservando a estabilidade das estruturas e funções.

8. Favorecer as organizações em paralelo: à semelhança do mundo vivo, convém pôr em prática o paralelismo das tarefas nos processos de criação, produção e regulação. A abordagem analítica e taylorista herdada do século XIX inibiu o desenvolvimento de redes humanas que funcionam como multiprocessadores. Com o advento dos computadores pessoais poderosos e das redes mundiais de telecomunicação, torna-se possível a colocação em paralelo de múltiplas funções societais. Esfuma-se a compartimentação entre setores e aumenta a segurança com a redundância das operações.

9. Pôr em prática círculos virtuosos: a economia tradicional concentrou-se, sobretudo, na análise dos mecanismos que determinam os rendimentos decrescentes: saturação de um mercado, redução das margens, efeitos de concorrência... No entanto, os mecanismos que levam à auto-seleção de uma espécie ou à criação de um mercado são de natureza autocatalítica. São círculos virtuosos. Para favorecê-los, é necessário criar “nichos” de desenvolvimento, indispensáveis para a respectiva ampliação, assim como as redes de comunicação que multiplicam os efeitos de sinergia.

10. Fractalizar os saberes: daqui em diante, comunicação, educação e culturas modernas não podem basear-se em uma concepção linear e enciclopédica do conhecimento. A produção e transmissão de saberes complexos e interdependentes têm necessidade de uma abordagem fractal e hipertextual da organização das informações. A fractalização desses saberes cria germes de conhecimento reconstrutíveis por cada um segundo sua abordagem pessoal. (P. 391 ss.).

Estes são fragmentos de informação que poderão subsidiar a ampliação do conhecimento sobre o assunto e na sequência contribuir para elaboração de estratégias que visem o entendimento da crise civilizacional contemporânea e em consequência encontrar possibilidades de soluções.

Como já foi dito, deve-se evitar simplesmente transpor princípios ou conceitos aplicáveis a outros sistemas, como os naturais, a exemplo de “a ignorância é útil”, mas entender sua contribuição para o sistema em estudo e então buscar estratégias que possibilitem resultado semelhante dentro dos sistemas humanos, culturais, levando em consideração as características humanas, como a inteligência. Se a ignorância produz resultados satisfatórios, porque não a inteligência, seguindo determinadas regras que inibam os fatores que levam aos efeitos indesejáveis poderá produzi-los?

Regras derivadas de um senso comum esclarecido, a partir da base, e portando, não arbitrariamente  impostas, deverão ter  efeito persuasivo que garantirá a aceitação e cumprimento, senão por todos, pelo menos por uma maioria significativa, que forme uma massa crítica capaz de garantir sua eficácia.

Fator de extrema importância para consecução desta perspectiva e que ela não depende de nenhum “outro”, seja político ou mandante/governante de qualquer natureza, mas depende exclusivamente de cada um da base, eu e você. Mas não basta (pre)ocupar-se, situação cômoda ocupada por grande parte da população mais consciente da problemática civilizacional contemporânea, mas será necessário ocupar-se, efetivamente fazer alguma coisa, e uma diretriz norteadora pode ser a decorrente da ideia de São Beda (2016): “Pesquise o que ignoras; ensine o que sabes; pratique o que ensinas.”

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 7. Ed, rev. e ampl. Trad. Roneide Venancio Majer; Klauss Brandini Gehardt. São Paulo: Paz e Terra, 2003.  (A era da informação: economia, sociedade e cultura; 1)

______. O poder da identidade. 2. Ed. Trad.  Klauss Brandini Gehardt. São Paulo: Paz e Terra, 2000.  (A era da informação: economia, sociedade e cultura; 2)

______. Fim de milênio. 2.ed. Trad. Klauss Brandini Gehardt; Roneide Venancio Majer. São Paulo: Paz e Terra, 2000b  (A era da informação: economia, sociedade e cultura; 3)

DIAMOND, Jared. The world until yesterday: what can we learn from traditional societies? New York: Penguin Books, 2012.

HOCK, Dee. Nascimento da era caórdica. Trad. Carlos A. L. Salum e Ana Lúcia Franco. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2006

JOHNSON, Steven. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. Trad. Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

QUINN, Daniel. Ismael: um romance da condição humana. Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Peirópolis, 1998.

______. Meu Ismael: o fenômeno continua. Trad. Celso Nogueira. São Paulo: Peirópolis, 1999.

______. A história de B.: uma aventura da mente e do espírito. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Peirópolis, 2000.

______. Além da civilização: a próxima grande aventura da humanidade. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Peirópolis, 2001.    

ROSNAY, J. O homem simbiótico: perspectivas para o terceiro milênio. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1997.

SÂO BEDA. Uol, pensador. Disponível em: <https://pensador.uol.com.br/autor/sao_beda/>. Acesso em 19 dez de 2016.

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