DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO

Considerando uma crise civilizacional como visão  subjacente, é possível depreender que o número de fatores que dela participam vem crescendo ao longo dos tempos, aumentando a complexidade decorrente de suas interações, sendo pivô disto tudo o próprio ser humano, em função de sua prática incoerente com a prática dos demais seres que convivem neste mesmo habitat e até incoerente com a própria racionalidade humana.

Necessário se faz realizar uma retrospectiva do surgimento e desenvolvimento da espécie humana, buscando entender o porquê deste comportamento.

Os ancestrais da espécie humana surgiram há cerca de 5 milhões de anos, e o Homo sapiens sapiens há cerca de 120 mil anos (PRESS et al, 2008, p). Há cerca de 2 milhões de anos surge o Homo Habilis (BURNS; LERNER; MEACHAM, 1989, p. 5-6), pois pelo andar ereto e cérebro maior do que o de qualquer outro macaco era bastante inteligente para utilizar instrumentos. Estas duas características, andar ereto e cérebro complexo, aliada a existência de fortes polegares opositores, permitindo o movimento de agarrar objetos e utilizar ferramentas melhor que as outras poucas espécies que possuem polegares, ajudaram a desenvolver tecnologias que ampliaram os sentidos limitados, armas e dispositivos de proteção (MILLER JR., 2008, p. 67), tornando a espécie humana tão poderosa e diferente das demais.

Estas três características originárias da evolução biológica, em interação produzem uma evolução não biológica, ou supra-biológica, que é denominada de cultura. Essa cultura congrega, dissemina e transmite por meio de gerações as práticas e os saberes, que ao se acumularem, transformam-se em conhecimento. Surgindo assim as organizações como a família e a religião. Agricultura e pastoreio, que substituíram a caça e a coleta, propicia o sedentarismo com o surgimento de cidades e estados. O conhecimento empírico era limitado, suprido pela religião e pelo mito diante de suas carências.

Por volta de 3.500 anos a. C. surgiu e é utilizada em grau considerável, a escrita e com ela, as civilizações. O conhecimento que era perdido na transmissão oral e prática, agora pode ser perpetuado, proporcionando significativo avanço quantitativo e qualitativo em busca de soluções para uma sociedade complexa (BURNS; LERNER; MEACHAM, 1989, p. 14).

É entre os séculos VIII e VI a. C. que surge a racionalidade ou o pensamento racional - argumentação a partir da razão, e não mais a partir do mito. É o reconhecimento, pelos gregos, de que a razão, a alma racional, pode ser usada como instrumento de conhecimento do mundo, das coisas (VASCONCELLOS, 2009, p. 53).

Isto acontece na Escola de Mileto, em Mileto na Grécia Arcaica, sendo este considerado como o início da Filosofia, com Tales ou Thales, primeiro filósofo, mais Anaximandro e Anaxímenes. (CHAUI, 2001; VASCONCELLOS, 2009).

Sócrates, Platão e Aristóteles, já nos séculos V e IV a.C., em Atenas, consolidam a “ideia de que é necessário justificar as proposições, por meio da demonstração, cujo fio condutor é o argumento.” (VASCONCELLOS, 2009, p. 54).

Além de se opor ao mito, normalmente, as verdades notórias, que dispensam comprovação, provenientes de revelações dos deuses ou de forças naturais, estes filósofos também se opõem a doxa ou opinião, por considerá-la senso comum, apoiadas apenas nas sensações e não no raciocínio. “Essa nova forma de racionalidade foi batizada pelos gregos de episteme.”. (VASCONCELLOS, 2009, p. 55). Sob esta forma discursiva, episteme, ciência e filosofia, não são distinguidas, mas se integram, ocupando-se ambas do mesmo objeto, o ser.

Apesar de integradas, existem abordagens diferenciadas. Thales, usando a água como princípio e causa material de todas as coisas, um princípio elementar empírico e palpável, pode ser caracterizado como empirista. Anaximandro usa o apeíron, algo indeterminado e ilimitado, uma idealidade sem analogia empírica ou observável, como o princípio de todas as coisas, sendo, portanto, um idealista. Anaxímenes usa o ar, como princípio de tudo, que apesar de sensível, se apresenta como indefinido e ilimitado, podendo ser enquadrado como realista. (VASCONCELLOS, 2009, p. 53-54).

A racionalidade matemática, de máthema, que significa ciência rigorosa, com regras precisas de derivação e indução, e que se aplicam à geometria, à física, à metafísica, usada por Pitágoras, Platão, Arquimedes, Euclides, é um dos padrões de racionalidade do logos, neste momento puramente abstrata. (ibid., p. 56).

A racionalidade lógica, cujo padrão foi fixado por Aristóteles, foi posteriormente desenvolvida tanto pelos pós-aristotélicos como pelos escolásticos medievais, perdurando por mais de dois mil anos e prevalecendo ainda, não só na filosofia como na ciência. (Ibid., p. 56).

O silogismo, que originalmente significa cálculo, peça fundamental desta teoria de demonstração, designa as operações do pensamento, fixa as regras, a consistência lógica, para um discurso ser admitido como racional.

É composto de três proposições, premissa, termo médio e conclusão. Através do termo médio, ou proposição intermediária, se estabelece um nexo necessário entre a premissa e a conclusão, ou seja, a verdade final se estabelece por dedução. As duas proposições iniciais devem ser verdades anteriormente estabelecidas, por intuição, por indução ou por abstração, o que leva a uma diversidade de métodos nos diferentes campos do conhecimento e ensejam uma classificação das ciências em teoréticas, práticas e produtivas, resultando em ciências mais ou menos perfeitas, quanto mais perfeito o silogismo.

Por aproximadamente dois mil anos, período em que sucumbiu a civilização grega, mas subsistiu sua cultura incorporada em outros povos, aflorou e sucumbiu a civilização romana, emergiu o cristianismo e com ele o clero da Igreja Católica, com os filósofos escolásticos tentando conciliar teologia com filosofia e ciência secular, transcorre a idade média sem grandes mudanças. (ibid. p. 58-59).

Mas vale observar o que Woods Jr. (2008, p. 6-7) coloca:

[...] ninguém pode negar a importância da antiga Grécia e de Roma. Ou das diversas tribos germânicas que sucederam ao Império Romano do Ocidente, como elementos formadores da nossa civilização. E a igreja não só não repudiou nenhuma dessas tradições, como na realidade aprendeu e absorveu delas o melhor que tinham para oferecer. [...]. A igreja desenvolveu o sistema universitário europeu, autêntico dom da civilização ocidental ao mundo. Muitos historiadores se maravilham diante da ampla liberdade e autonomia com que se debatiam as questões naquelas universidades. E foi a exaltação da razão humana e das suas capacidades, o compromisso com um debate rigoroso e racional, a promoção da pesquisa intelectual e do intercâmbio entre os estudantes dessas universidades patrocinadas pela Igreja – foi isso que forneceu as bases para a Revolução Científica.

Esta Revolução Científica dá início a chamada Idade Moderna. Entre outros nomes significativos para sua concretização estão: Bacon, Galileu, Descartes, Newton e Comte.

Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês, precursor da filosofia empírico-positivista, um dos proponentes do método indutivo como uma nova maneira de estudar os fenômenos naturais, cuja veracidade deveria ser comprovada pela tabulação de verificações, pois considerava insuficiente o raciocínio dedutivo ou silogístico, que é puramente mental.

Galileu Galilei (1564-1642), físico italiano que, introduzindo e valorizando o método experimental nas ciências da natureza, cria uma física não-contemplativa, contrapondo-se a Aristóteles que ficava só com a demonstração lógica ou dedução. Também inventou um telescópio com grande poder de aumento e pela observação dos movimentos dos planetas comprovou as ideias de Copérnico sobre o heliocentrismo, ainda rejeitadas na época. Para ele, o livro do mundo está escrito em linguagem matemática e, portanto é a matemática um modelo de racionalidade. Suas ideias divergentes das Sagradas Escrituras levaram-no a um Tribunal de Inquisição, onde se retratou.

René Descartes (1596-1650), pensador francês, físico e matemático, considerado figura central na origem da ciência moderna, tanto que o paradigma desta ciência é também conhecido como paradigma cartesiano.

Descartes divide o mudo em material e espiritual, corpo e mente. O primeiro com extensão (res extensa) é o domínio da ciência, da coisa, da medida, da precisão; o outro, o sujeito pensante (ego cogitans), é o domínio da filosofia, do sujeito, da meditação interior.

Opõe aos filósofos escolásticos medievais e propõe substituir a fé pela razão e ocupar-se com os objetos mensuráveis e quantificáveis, baseando o conhecimento científico na matemática.

Em lugar da fé em verdades pré-estabelecidas, apresenta a dúvida, como método de raciocínio, a partir do qual as verdades podem ser encontradas, pelo pensar, como em “penso, logo existo”. Estabelecida a razão como critério da verdade, surge o racionalismo, do qual Descartes é o considerado o pai.

Isaac Newton (1642-1727), físico e matemático inglês, elaborou a primeira grande síntese da física, com ênfase nas leis da mecânica, teoria da gravitação universal, teoria da luz e da cor, teoria corpuscular da luz, e cálculo diferencial e integral na área da matemática, além de propor tratamento matemático ao problema da organização dos sistemas do mundo, considerações filosóficas sobre os fenômenos, regras do raciocínio e proposições, concebendo o mundo como uma máquina, resultando que paradigma newtoniano ou mecanicista se torna também uma designação do paradigma da ciência moderna, que ultrapassa a matemática tornando-se ciência da natureza, tendo a física empírica como modelo.

Augusto Comte (1798-1857), filósofo francês, sendo antimetafísico, funda a escola filosófica conhecida como positivismo. Em relação à ciência, considera que cabe a filosofia coordenar o resultado das diversas ciências, harmonizando-as, tornando o filósofo um especialista em generalidades.

Comte estabelece a “Lei dos Três Estágios” para o desenvolvimento do pensamento. Teológico, explicação pela ação dos seres míticos, metafísica, explicação por abstrações racionais, possibilitando várias explicações para o mesmo fenômeno, e a positiva, em que a explicação deriva da observação e da experiência, reintroduzindo a desconfiança quanto a fundar o conhecimento no homem, defendendo e eliminando as subjetividades, os juízos de valor, pela objetividade da observação da coisa.

Com base nesta lei, estabelece gradação das ciências, considerando positivas: a matemática, astronomia, física, química, biologia. Para a ciência da sociedade humana introduz o termo sociologia, que deveria buscar positivar-se e transformar-se em “física social”.

É neste contexto que Wilhelm Dilthey (1833-1911), com objetivo de preservar a especificidade das ciências humanas que não podem dispensar a teleologia, diferente das ciências naturais que trabalham com o princípio da causa eficiente, propõe a separação das mesmas em ciências positivas ou hard sciences, ciências rigorosas, e ciências humanas ou soft sciences.

Vasconcellos (2009, p. 52-65) sintetizou o acima exposto no quadro abaixo, sinalizando com a perspectiva do “novo paradigma da ciência”, a ser abordado após analisarmos mais detidamente o paradigma tradicional.

Novo paradigma da ciência

Usando a definição de Capra (1995, p. 17) para paradigma, como sendo “a totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza”, e aplicando-a a ciência e aos cientistas que dela fazem parte, vejamos quais são então estes pensamentos, percepções e valores originados deste período e que se consolidaram como parâmetros norteadores da atividade científica até nossos dias.

Para Ackoff (1981), as principais características deste paradigma tradicional são: análise, reducionismo, determinismo e mecanicismo. O procedimento analítico, segundo o mesmo autor, (1981) consistiria dos seguintes procedimentos:

1)Separação do objeto material ou conceitual a ser investigados em suas partes constituintes.

2)Estudo para compreensão destas partes

3)Reunião do conhecimento alcançado para compreensão do todo.

O próprio Descartes escreveu no “Discurso do Método” (2007, p. 31-32):

[...] dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las. [...] conduzir por ordem os [...] pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos [...]

E ainda como parte do título da Regra V, em Regras para a Direção do Espírito (DESCARTES, 2007, p. 85): “se reduzirmos as proposições complicadas e obscuras a outras mais simples, e se depois, partindo da intuição das mais simples, tentar nos elevar pelos mesmos graus ao conhecimento de todas as outras”.

Reducionismo é o pressuposto de que o mundo complexo é constituído de partes mais simples, e para evitar que isso se tornasse um processo ilimitado de redução, reincorporou-se a ideia atômica da antiguidade, a crença de que existem partes indivisíveis. (ACKOFF, 1981).

Determinismo é a ideia de que todos os fenômenos no universo podem ser reduzidos a relações causais simples. Tudo tem uma causa definida e originaria um efeito definido.

Mecanicismo é a ideia de mundo derivada do reducionismo e determinismo, como uma máquina constituída de peças simples e que pela montagem se tornam um todo, e que seu funcionamento produz uma cadeia de eventos, linearmente encadeados.

Apesar de contemplar as características acima, Vasconcellos (2009, p. 74) as engloba de maneira diferenciada nos seguintes pressupostos epistemológicos: simplicidade, estabilidade, objetividade. Simplicidade, porque, embora para o cientista o mundo se apresente complexo, e sempre se apresentou, pois já o mundo aristotélico era de “uma complexidade divinamente ordenada ou imaginativamente concebida” (LASZLO 1972, p. 15 apud, VASCONCELLOS, 2009, p. 74), acreditava que por trás da complexidade estava a simplicidade e era sua tarefa desvendá-la e explicitá-la.

Assim, a ciência procede à análise deste mundo complexo, separando-o em partes simples, desconectadas do todo e do ambiente. Também os fenômenos são separados, por exemplo, físicos, biológicos, psicológicos, culturais. A partir da separação, chamada de disjunção, necessário se faz enquadrar as partes, causas ou fenômenos nesta classificação, normalmente excludentes, originando a atitude do “ou/ou”. A redução as menores partes, atomização, é inerente a simplicidade. Desta simplificação deriva a compartimentação do saber, a fragmentação do conhecimento em áreas ou disciplinas científicas, a fragmentação das instituições científicas em departamentos estanques, originando os especialistas.

Por esta perspectiva, fenômenos são causa e efeito lineares, sendo a causa precedente, ou eficiente a única admitida, eliminando-se a causa final ou teleológica. É a ênfase na causa eficiente o embasamento para o estabelecimento das leis ou princípios que regem os fenômenos. Seu conhecimento e intervenção possibilitam a manipulação dos mesmos.

A estabilidade deriva da determinação e previsibilidade possível pela determinação das causas e das leis a reger os fenômenos, obtidas pela observação empírica, matematicamente quantificada e cujas funções/equações possibilitam a previsão.

Estas equações e funções matemáticas possibilitam o cálculo e determinação futura, mas também retroativamente, possibilitando a reversibilidade dos fenômenos. A controlabilidade dos fenômenos deriva destes conhecimentos e das capacidades de intervenção deles advindas.

A objetividade se funda na convicção de que o mundo é o que é por si mesmo, independentemente da visão percepção ou possível interferência do observador.

A realidade percebida será tão mais exata quanto mais objetivo  for o observador, descartando todas suas subjetividades, ou seja, seus valores, suas crenças, seus paradigmas.

O quadro a seguir apresenta os termos centrais do paradigma da ciência tradicional, que nos possibilitam inferir a dimensão e direção do mesmo.

Termos centrais do paradigma da ciência

ACKOFF, R. L. Creating the corporate future: plan or be planned for. New York: John Willey & Sons, 1981.

BURNS, E. M.; LERNER, R. E.; MEACHAM, S. História da civilização ocidental. Trad. Donaldson M. Garschagen. 31. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1989. 2 vol.

CAPRA, F. Sabedoria incomum: conversas com pessoas notáveis. Trad. Carlos Afonso Malferrari. São Paulo: Cultrix, 1995.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 12. ed. São Paulo: Editora Ática. 2001.

DESCARTES, R. O discurso do método. Regras para a direção do espírito. Trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2007.

PRESS, F. et al. Para entender a terra. 4. ed. reimp. 2008. Porto Alegre: Bookman, 2008.

VASCONCELLOS, M. J. E. de. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. 8. ed. Campinas: Papirus, 2009.

WOODS JR., T. E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. de Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008.

Fonte: Vasconcellos, 2009.

Fonte: Vasconcellos, 2009.

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