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CRISE CIVILIZACIONAL

Há cerca de meio século, a percepção de que havia algo errado no caminho trilhado pela humanidade começou a tornar-se evidente.

Em seu livro “Primavera silenciosa”, a bióloga, Rachel Carson (1969), na década de 1960, denuncia com veemência o uso abusivo de substâncias químicas não naturais, ou seja, manipuladas pelo homem, como os inseticidas e os herbicidas.

O DDT (diclorodifeniltricloroetano) um dos primeiros e consequentemente, um dos mais conhecidos, tendo sido usado já durante a Segunda Guerra Mundial para combater vetores e parasitas patogênicos, cujas propriedades foram identificadas pelo químico suíço Hermann Müller, agraciado com o Prêmio Nobel de medicina em 1948.

Não sendo de ação específica, o DDT, entre outros, acabou atingindo uma ampla variedade de espécies, muitas vezes atacando junto com a espécie que se deseja eliminar também o seu predador, possibilitando, em muitas situações um retorno da praga em maiores proporções, se sua reabilitação for mais rápida do que seu predador, pois a reabilitação deste pode eventualmente, depender da reabilitação prévia daquele. Ainda a ação não específica, atingindo uma gama de outras espécies, afeta a cadeia trófica diretamente pela ação do veneno e indiretamente pela eliminação de diversos elos presa/predador pela ausência de alimento de diversas espécies.

Grande parte destas substâncias podem ser classificadas como POPs (poluentes orgânicos persistentes), ou seja, elas tendem a permanecer por longo tempo na natureza. Muitos animais não são por eles atingidos, mas os assimilam e armazenam em seus organismos, podendo atingir então seus predadores. A minhoca, por exemplo, assimila o DDT, e acaba matando seus predadores, entre eles os pássaros, que eventualmente não tinham sido atingidos diretamente pela substância, ampliando seu efeito, fato que serviu de subsídio para o título de “Primavera silenciosa” justamente em função da ausência dos pássaros canoros que costumam saudar a primavera com grande alarido.

O ambiente terrestre, que envolve o ar, o solo e a água, é contínuo. A aplicação destas substâncias, normalmente pulverizadas no ar, se depositam sobre plantas, solo e água. Pela chuva, são carreadas para o solo, vão contaminar tanto o solo, como os rios, lagos, lençóis freáticos e chegam até o mar. Todas as microfaunas de todos estes ambientes podem vir a ser contaminadas ao longo do tempo, e consequentemente, pela cadeia trófica, podem chegar até o ser humano, pois muitos deles se acumulam nos tecidos, principalmente, nas gorduras, transferindo-se ao servirem de alimento, ao que se denomina de bioacumulação.

A justificativa básica para o uso destas substâncias, nocivas a natureza sobre todos os aspectos, é a necessidade de se produzir alimentos, face à propalada miséria e fome de grande parte da população mundial. No entanto, na época, 1962, os Estados Unidos, pagavam para fazendeiros não produzirem, aplicavam-se políticas com objetivo de destinar áreas de fazendas para outras finalidades, e ainda assim, gastava mais de um bilhão de dólares anuais, na execução de programas de armazenamento de excedentes de produção de alimentos (CARSON, 1969, p. 19).

No final da década, em 1968, é fundado o Clube de Roma, e por encomenda deste, em 1972 é publicado o livro “Limites do Crescimento”, elaborado por uma equipe do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e os cientistas americanos Dennis Meadows e Donnela Meadows, e o acadêmico norueguês Jorgen Randers, no qual foi demonstrado matematicamente a incapacidade do planeta em suportar o crescimento econômico e populacional, em função do aumento do consumo, em contraste com os recursos limitados ou finitos, bem como, em relação a degradação originada pela poluição decorrente de práticas inadequadas e do descarte de resíduos. (LIMA, 2012).

Estudos, conferências e publicações continuam trazendo a evidência, os equívocos da caminhada humana. Ainda em 1972, a ONU (Organização das Nações Unidas) realiza na Suécia a 1ª Conferência Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e em 1983 cria a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, chefiada pela norueguesa Grow Harlem Brundtland, que comanda a elaboração de um relatório publicado em 1987, “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório Brundtland. É deste relatório a expressão desenvolvimento sustentável como sendo “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades” (PENNA, 1999, p. 140).

Eco-92 ou Rio-92, Rio+10 e Rio+20, foram as conferências subsequentes da ONU, realizadas no Rio de Janeiro em 1992, Johanesburgo na África do Sul em 2002 e de novo no Rio de Janeiro em 2012, todas plenas de problemas, mas pobres em soluções eficazes. Como diz Bernardo Mariani, professor da PUC-Rio (apud LIMA, 2012),  a propósito do livro “Limites do Crescimento”:

Analisando, hoje, 40 anos depois, o impacto é de se poder enxergar o quão antiga é a preocupação com o meio ambiente, embora pouco tenha mudado. Os grandes líderes ainda pensam em crescimento, produção, consumo, economia. Ao invés disso, é necessário nos prepararmos para as mudanças climáticas, que já estão ocorrendo, e mudar o paradigma financeiro-industrial.

Para possibilitar uma melhor visão do assunto, passa-se a uma síntese destes problemas ambientais, elencados por Jared Diamond (2006, p. 581-593) em seu livro “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”.

Os problemas elencados foram consolidados em uma dúzia de grupos, sendo que oito deles já eram significativos e foram suficientes para desencadearem o declínio e desaparecimento de diversas civilizações. Os outros quatro são consequências do desenvolvimento ou passaram a ser em função deste desenvolvimento.

Quatro consistem em destruição ou perdas de recursos naturais. Três se referem a limites de recursos naturais. Outros três são referentes as coisas perigosas que produzimos ou transportamos, e os últimos dois estão relacionados com as questões populacionais.

Como primeiro grupo, a destruição de habitats naturais, substituindo-os por habitats antrópicos, como cidades, vilas, estradas, plantações e pastagens, que são danificados pelo uso inadequado ou pela alteração das condições ambientais. A floresta é o recurso mais devastado ao longo dos tempos, tanto pela exploração dos materiais que ela fornece (como a madeira), como também pela utilização do espaço por ela ocupada para uso em outras finalidades. Além de fornecer materiais, ela fornece também os denominados serviços ambientais: proteção das bacias hidrográficas, reguladoras do ciclo hidrológico, participando inclusive na formação das nuvens, proteção do solo contra erosão, abrigo e sustento de grande parte da biodiversidade, imprescindível a manutenção da vida no planeta. Mesmo a modificação de sua estrutura, sem destruição, transformação em monoculturas, por exemplo, acarreta enormes prejuízos em suas funções, além de aumentar seus riscos, como incêndios.

Outro recurso com intensiva destruição é os pantanais. Sua utilidade como manutenção da qualidade da água, habitat de diversas espécies, especialmente, juvenis, que posteriormente migram para rios e mares, foram bastante relegadas, tanto por desconhecimento como por equívoco de avaliação de custo benefício.

Os recifes de corais, são equivalentes marinho das florestas pluviais, abrigo de considerável biodiversidade, vem sendo destruídos por pesca com métodos inadequados, proliferação de algas pela redução de seus predadores pescados em excesso, deposição de sedimentos e poluentes oriundos das atividades humanas, bem como, sua descoloração pelo aumento da temperatura das águas.

A parte rasa dos oceanos e sua biodiversidade vêm sendo também extremamente prejudicadas pela pesca de arrastão, além da deposição de sedimentos e poluentes.

No segundo grupo se tem os recursos alimentares naturais ou selvagens. No passado, toda a alimentação provinha da natureza, mas os espaços terrestres ainda selvagens são insuficientes para possibilitar esta prática, exceção a algumas tribos indígenas ainda existentes. No entanto, o mar ainda é um grande fornecedor de proteína animal, praticamente de graça, excetuando-se os custos de captura, constituindo-se na base alimentar de muitas populações ribeirinhas. No entanto, a pesca comercial, com cada vez mais competidores, tende a exaurir este recurso comum, repetindo-se a conhecida tragédia dos comuns, face à dificuldade de controle, sendo que as espécies de mais alto valor estão em franco declínio ou já entraram em colapso.

A aquicultura, com um futuro aparentemente promissor, pois é uma das formas mais baratas de produzir proteína animal, pode acabar prejudicando ainda mais a conservação do recurso natural. A produção de um quilo de proteína consome vinte quilos, normalmente de proteína selvagem. As espécies selecionadas e adaptadas aos cativeiros são de rápido crescimento e de baixa sobrevivência, e podem causar dano genético ao cruzar com espécies selvagens. Ao competir com a pesca tradicional, força-se a redução de preços desta, obrigando assim o aumento de captura em busca do ponto de equilíbrio financeiro nessa atividade, ampliando desse modo, a sobrepesca predatória.

O terceiro grupo refere-se a biodiversidade, onde animais e vegetais úteis ao homem, tanto para a alimentação como para o fornecimento de matéria prima possuem um determinado valor óbvio, sua proteção à extinção tem sido mais protegida. No entanto, as espécies que não possuem um interesse imediato, muitas delas por serem concorrentes no uso de algum recurso, tornam-se, portanto, prejudiciais aos interesses imediatos da espécie humana, e por isso elas possuem a sua proteção desleixada ou até combatida visando seu extermínio, pois são consideradas como pragas. A extinção de qualquer espécie provocará desequilíbrio no sistema com maior ou menor intensidade, pois toda espécie preda outra ou outras e é também por outra ou por outras predadas, ocasionando assim uma ruptura na cadeia trófica. Além disto, muitas espécies são fornecedoras de serviços ambientais, como a polinização, a aeração do solo, entre outras. Num experimento simulador de biosfera houve problemas que prejudicaram seres humanos sendo que causa foi atribuída simplesmente, a ausência de minhocas, pela interferência do equilíbrio da composição do ar.

O quarto e último grupo referente a perda ou destruição de recursos naturais, diz respeito ao solo. O solo é formado em tempos geológicos, pelo intemperismo das rochas em interação com outros materiais, seres, energias e fenômenos do ambiente. É desta interação que resulta a sua maior ou menor fertilidade. Seu uso inadequado, sua exposição aos fenômenos ambientais, sol, chuva, vento, podem destruí-lo ou remove-lo para outros locais tornando-os desse modo inutilizáveis. Erosão fluvial, eólica, acidificação, alcalinização, salinização, com eventuais desertificações são os processos que provocam as maiores perdas de solo.

Os quatros grupos desta série já eram significativos no passado, sendo considerados como causa presente em maior ou menor grau no colapso das civilizações precedentes. Dos três seguintes, que envolvem limites, dois são fatores que só recentemente ganharam importância, energia e capacidade fotossintética, e o outro, a água, também já foi causa presente no insucesso de civilizações passadas.

As maiores fontes de energia, quinto grupo, ainda são os combustíveis fósseis. Mesmo que, novas jazidas, tanto de petróleo, quanto de gás e carvão, continuem sendo descobertas a cada dia, e, portanto, se torna impreciso a quantidade real disponível, mas é evidente a sua limitação, principalmente se for considerada a acessibilidade de jazidas, que está se tornando cada dia mais difícil, apesar de todo progresso da tecnologia, envolvendo também maiores danos ambientais aumentando a razão custo x benefício. É a razão custo x benefício, o grande fator que dificulta a obtenção de energias alternativas: hídricas, solares, eólicas, biológicas, entre outras.

O sexto grupo, refere-se a água, sendo esse um fator limitante do passado e presente. Praticamente toda a água doce já está sendo utilizada, ou se ainda não está é porque ela localiza-se em locais inacessíveis ou distantes das fontes de consumo. Além dos rios e dos lagos, também os aquíferos já estão sendo utilizados em largas proporções, normalmente acima de suas capacidades de recarga, de modo que vão terminar se esgotando, mais dia menos dia. Sem contar com as contaminações que já estão ocorrendo por falta de cuidados nas áreas de recarga. A dessalinização é possível, mas extremamente dispendiosa para grandes quantidades, além do consumo de energia requerido, tanto no processo como no bombeamento necessário para disponibilizá-la nas áreas de uso.

O sétimo grupo corresponde à capacidade fotossintética. Aparentemente, a disponibilidade de luz solar é infinita e a possibilidade de fotossíntese também. No entanto, esta capacidade de fotossíntese é condicionada por outros fatores além da luz solar, como por exemplo, a localização, a chuva, a temperatura, a geometria e a bioquímica da planta. Segundo alguns cálculos realizados em 1986, os mesmos apontavam que o homem já está utilizando metade desta capacidade total. Há previsões de que em meados deste século pode-se estar prestes a atingir o seu limite de utilização.

O oitavo grupo, primeiro da série de produtos perigosos que são produzidos e transportados referem-se aos produtos tóxicos. Além dos agrotóxicos, já analisados anteriormente, a propósito do livro “Primavera silenciosa”, diversos outros produtos químicos são descartados como resíduos industriais ou domésticos, inclusive metais pesados. Outra grande variedade de produtos químicos está presente na alimentação, especialmente, os conservantes e os aditivos de toda ordem. Esses em pequenas quantidades, medidas isoladamente, mas que pelo acúmulo e ou pelas interações possíveis, podem produzir efeitos a longo prazo que sequer são imagináveis, em função do que não foram consequentemente devidamente mensurados e avaliados.

Também produtos naturais, normalmente sintetizados nos processos vitais, hormônios, por exemplo, são produzidos e utilizados para acelerar processos de crescimento, em benefício da produção de alimentos, mas cujos efeitos colaterais de longo prazo não foram ainda devidamente avaliados.

O nono grupo, segundo desta série, diz respeito a algo que é transportado e/ou realocado, inclusive inadvertidamente. São as espécies exóticas, tanto de animais quanto de vegetais, que ao serem introduzidas em habitats diferentes, podem se tornar extremamente prejudiciais, pois por não existir o seu predador natural nesse novo habitat, acabam proliferando excessivamente ampliando sua capacidade de predação e de competição, prejudicando ou destruindo o meio natural em que foram inseridas.

O décimo grupo, último desta série, é algo novamente que se produz. São os gases, maioria deles abundantes na natureza, mas que a atividade humana tem ampliado consideravelmente. Apesar da polêmica sobre a magnitude da influência destes gases de produção antrópica, tanto na questão do aquecimento global, quanto da destruição da camada de ozônio, que filtra os raios ultravioletas, é praticamente inquestionável sua participação.

O smog e a chuva ácida são também causados por poluição atmosférica de origem antrópica. Ambos são de causa e de efeito local, mas a chuva, que está eventualmente distante tanto no tempo como no espaço, depende das demais condições atmosférica de temperatura, de pressão e da direção dos ventos, principalmente.

A última série de dois grupos se refere a população. Sendo que a primeira da série e décimo primeiro grupo é o aumento populacional. Quanto mais pessoas, maior será a necessidade de recursos ambientais, porém esses estão cada vez mais escassos como já vimos. Atualmente, a taxa de natalidade tende a estabilizar-se próxima da média 2 ou 2,1 filhos por mulher e que seria uma taxa apenas de reposição, deixando de haver crescimento populacional. No entanto, face ao grande aumento populacional em passado recente, o número de jovens em plena idade reprodutiva é muito grande, e mesmo esta taxa de 2 filhos por mulher resulta em um número bem maior de nascimentos comparado com o de mortes, que tem sido menores também pelo aumento de expectativa de vida, resultando num significativo crescimento populacional, cuja previsão de estabilizar-se é bastante incerta, tanto quanto a data como quanto ao total desta população.

E como último grupo e último item da série, se tem a questão do consumo e do descarte per capita, e consequentemente, consumo e descarte global. O que impacta sobre o planeta não é o número de pessoas sobre ele, mas sim, o desgaste que a ele se impõe pela retirada de materiais para suprir as necessidades dos indivíduos e pelo descarte de rejeitos que a natureza precisa reprocessar e que vem cada vez mais excedendo esta capacidade.

Dados de 2005, conforme o Diamond (2006) já citado, apontam para um consumo médio de 32 vezes maior nos países desenvolvidos em comparação aos países menos desenvolvidos. Levando-se em consideração os que já estão na média, e os indivíduos dos países menos desenvolvidos, mas que possuem poder aquisitivo comparável aos países mais desenvolvidos, se todos ascendessem ao nível de consumo dos mais desenvolvidos, as necessidades seriam 12 vezes maiores.

Estes doze problemas individualmente descritos, na verdade estão todos interligados. Qualquer um deles que não puder ser equacionado poderá por a perder todo o trabalho eventualmente realizados nos demais. Como diz o Diamond já citado (2006, p. 595):

A comunidade mundial está atualmente em um curso de não-sustentabilidade, e qualquer um de nossos 12 problemas de não-sustentabilidade que acabamos de resumir seria suficiente para limitar nosso estilo de vida nas próximas décadas. São como bombas de tempo com detonador menos de 50 anos.

Outro aspecto destacado por este mesmo autor na mesma página:

As pessoas frequentemente perguntam: “Qual é o problema ambiental/populacional mais importante que o mundo enfrenta hoje em dia?” Uma resposta insolente seria: “O problema mais importante é nossa visão equivocada ao tentar identificar um único problema importante!” Essa resposta insolente é essencialmente correta, [...].

E trazendo mais uma faceta da mesma problemática, vejamos o que diz ainda o autor (2006, p. 596):

Portanto por estarmos rapidamente avançando neste curso de não-sustentabilidade, os problemas ambientais do mundo serão resolvidos de um modo ou de outro, no tempo de vida das crianças e jovens adultos de agora. A única pergunta é se serão resolvidos de modos agradáveis de nossa escolha, ou de modos desagradáveis que não sejam de nossa escolha, como guerras, genocídio, fome, doenças epidêmicas e colapso de sociedades. Embora todos esses fenômenos sombrios tenham sido endêmicos para a humanidade através de nossa história, sua frequência aumenta com a degradação ambiental, pressão populacional e da pobreza e instabilidade política resultantes.

Dois aspectos importantes surgem a partir destas duas últimas colocações. “O problema mais importante é nossa visão equivocada” nos indica que é a visão de mundo desta civilização, originada da ciência e do conhecimento, produzido ao longo dos últimos tempos, não só o entrave para a percepção das soluções que se fazem necessárias, mas também causa destes problemas.

 “Guerras, genocídio, fome, doenças epidêmicas e colapso de sociedades” entreveem a interação entre problemas ambientais e problemas sociais que já se fazem presentes, evidentemente originados e sendo agravados pela mesma equivocada visão de mundo.

E o problema ambiental se amplia, ultrapassando inclusive a perspectiva de crise ambiental e desembocando em uma crise da sociedade e das suas instituições.

Falando sobre medidas possíveis para reduzir a extinção de espécies, Yuji Ishiguro (2005, p. 190), escreve:

Para reverter a situação, é necessária uma mudança fundamental no modo em que sociedades funcionam e como os indivíduos vivem. Esta mudança precisa envolver o sistema econômico, sistema de valor de indivíduos e de sociedade, convicções religiosas, os chamados direitos humanos e as rotinas diárias de indivíduos e, no mundo real, não acontecerá em futuro previsível.

“Não acontecerá em futuro previsível”, pode ensejar interpretação de pessimismo exagerado, mas se conjugarmos com o enfoque do autor anterior de que o problema maior é “nossa visão equivocada”, e que a mudança desta visão envolve, voltando à colocação de Ishiguro, “sistema econômico, sistema de valor de indivíduos e de sociedade, convicções religiosas, os chamados direitos humanos e as rotinas diárias de indivíduos”, a assertiva se tornará extremamente realista.

Também a assertiva de Henrique Leff (2000) corrobora esta perspectiva:

A questão ambiental, com a sua complexidade, e a interdisciplinaridade emergem no último terço do século XX (finais dos anos 60 e começo da década de 70) como problemáticas contemporâneas, compartilhando o sintoma de uma crise de civilização, de uma crise que se manifesta pelo fracionamento do conhecimento e pela degradação do ambiente, marcados pelo logocentrismo da ciência moderna e pelo transbordamento da economização do mundo guiado pela racionalidade tecnológica e pelo livre mercado.

Maria José Esteves de Vasconcellos (2009, p.18) na introdução da sua obra, “Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência” alerta para a possibilidade de colapso da nossa civilização pelas duas perspectivas, ambiental e social, quando diz:

Tem-se falado muito sobre as crises vividas hoje pela sociedade contemporânea, muitas vezes associando-as ao fato de a sociedade ter adotado a ciência como base de sua organização.

Por um lado, a tradução tecnológica dos conhecimentos científicos ampliou enormemente a eficácia do homem para viver nos mais variados ambientes. Mas com isso, não só modificou as relações do homem com a natureza, colocando-o cada vez mais dependente do uso da ciência e da técnica, como também tornou eminente o risco de uma catástrofe ecológica. Tendo dominado o ambiente ecológico, parece que o homem deslocou as questões de sua sobrevivência para o plano das relações com seus semelhantes. E aí também parece que as contribuições da ciência não têm sido suficientes ou adequadas para afastar de nossa civilização o risco real de sua própria extinção.

Buscar soluções eficazes e duradouras passa obrigatoriamente por buscar-se conhecer a sociedade ou civilização contemporânea e seus componentes, dos quais o componente básico é o indivíduo, pois é ele em suas relações que forma as sociedades, que por sua vez os formam, como explicita Edgar Morin (2011a, p. 87):

A sociedade, [...], é produzida pelas interações dos indivíduos que a constituem. A própria sociedade, como um todo organizado e organizador, retroage para produzir os indivíduos pela educação, a linguagem, a escola. Assim os indivíduos, em suas interações, produzem a sociedade, que produz os indivíduos que a produzem. Isso se faz num circuito espiral através da evolução histórica.

Estas interações entre indivíduos, influenciadas pelos ambientes naturais e construídos, num circuito espiral produz sociedades diversificadas, estampadas e perceptíveis na diversidade de culturas.

Historicamente se sabe que diversas sociedades surgiram, cresceram, floresceram, decaíram e se extinguiram. Ao desaparecimento de umas seguia-se o surgimento de outras, e a espécie humana continuava se desenvolvendo.

No estágio atual de desenvolvimento social, se globalizando, duas grandes civilizações disputam a hegemonia. Esta disputa se estende pelos últimos 16 mil anos, com alguns períodos de prevalência do oriente, mas na maior parte do tempo a prevalência é do ocidente, mais presentemente da civilização ocidental. Ian Morris (2013) em seu livro “O domínio do Ocidente”, cujo título original é “Why the West rules – for now” e que é titulo da parte III, “por que se encontra o poder no Ocidente por agora” sugere a possibilidade da hegemonia voltar a ser do Oriente. No entanto, o maior desenvolvimento do Oriente no presente, está fortemente fundamentado na assimilação de fatores próprios da civilização ocidental, desta forma, os efeitos colaterais perniciosos do desenvolvimento se farão presentes em ambas as civilizações, independentemente de qual delas seja a hegemônica.

Isto tornará semelhante as civilizações hegemônicas, tornando-as globalizadas e seus efeitos perniciosos incidentes sobre os já elencados fatores ambientais vitais, a exemplo do notório problema do aquecimento global, tenderão a levar ao colapso global, criando a possibilidade do desaparecimento da espécie humana, entre outras tantas.

Pelo até agora exposto, é possível inferir a dimensão global da problemática e consequentemente da crise, significando momento histórico indefinido, com riscos inquietantes, capaz de desfecho indesejável. Além de global, é perceptível sua derivação dos mais diferentes e intricados processos inerentes a vida da espécie humana inserida na biosfera, no planeta e no cosmos.

Neste contexto, aplicando o que Blaise Pascal (1973, p. 59) já escreveu no século XVII, tendo sido contemporâneo de Rene Descartes:

E como todas as coisas são causadoras e causadas, auxiliadoras e auxiliadas, mediatas e imediatas, e todas se acham presas por um vínculo natural e insensível que une as mais afastadas e diferentes, estimo impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como conhecer o todo sem entender particularmente as partes.

Mantendo um olhar no todo, busca-se então, elencar uma diversidade de opiniões de cientistas e pensadores sob os mais diferentes enfoques desta crise.

O conhecimento humano derivado da experiência prática ou produzido pela abstração, cresce ao longo dos tempos, especialmente após a invenção da escrita para registrá-lo, minimizando as perdas existentes na transmissão oral de geração em geração, evitando o retrabalho de refazer experiências já feitas ou estudar matérias já desvendadas.

Também Descartes (2007, p. 31) propõe “dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto possível e necessário para resolvê-las”, ou seja, se prioriza o estudo das partes.

Já Guilherme de Ockam no século XIV, havia construído o princípio da economia na produção do conhecimento, também conhecido como “navalha de occam”, colocando que “as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si só econômica e não se multiplica em vão”. (GUILHERME DE OCKAM, 2017).

Em função da dificuldade do ser humano de conseguir assimilar todo o conhecimento que vai sendo produzido, aliado a máxima reducionista, facilitadora do entendimento pela simplificação do todo em suas partes constituintes e pela eliminação de correlações de menor importância, o conhecimento vem ao longo dos séculos recentes se especializando e se fragmentando. Edgar Morin, (2005a, p. 18), corrobora ao dizer que “a própria organização do conhecimento, no interior da nossa cultura, racha esse fenômeno multidimensional; os saberes que, ligados, permitiriam o conhecimento do conhecimento são separados e esfacelados.”

Esta fragmentação do conhecimento que se está gerando, acaba se tornando numa imensa “Torre de Babel” e resultando numa crise dos fundamentos do conhecimento com consequências quase que imprevisíveis. (MORIN, 2011a, p. 20) torna isto evidente:

[...] o crescimento exponencial dos saberes separados, levam cada um, especialista ou não, a ignorar cada vez mais o saber existente. O mais grave é que tal situação parece evidente e natural. Como vivemos, sem dúvida, a época mais elevada do progresso do conhecimento, da fecundidade das descobertas, da elucidação de problemas, percebemos dificilmente que os nossos ganhos inusitados de conhecimento são pagos com ganhos inusitados de ignorância. Como a universidade e a pesquisa, refúgios naturais do pensamento, toleram desvios e não-conformismos e permitem tomar consciência das próprias carências universitárias e científicas, esquece-se que produzem a mutilação do saber, um novo obscurantismo.

O novo obscurantismo, diferente do estagnado nos recantos ignaros da sociedade, provém doravante dos píncaros da cultura. Cresce no coração do saber, permanecendo invisível para a maioria dos produtores desse saber, que sempre crêem produzir unicamente para as Luzes.

Pior ainda: não são apenas os benefícios, mas também os males especificamente modernos (superpopulação, poluição, degradação ecológica, crescimento das desigualdades no mundo, ameaça termonuclear) que, como diz Wojciechowski (1978), são inseparáveis do progresso do conhecimento científico. Inconscientes do que é e faz a ciência na sociedade, os cientistas são incapazes de controlar os poderes escravizadores ou destrutores gerados pelo saber.

Assim, o mesmo processo determina as maiores conquistas do conhecimento e produz novas ignorâncias, um novo obscurantismo, uma nova patologia do saber, um poder não controlado. Esse fenômeno de dupla face acarreta um problema de civilização crucial e vital. Começamos a compreender que, mesmo sendo totalmente dependente das interações entre os espíritos humanos, o conhecimento escapa-lhes e constitui uma potência que se toma estranha e ameaçadora. Hoje, o edifício do saber contemporâneo ergue-se como uma Torre de Babel que nos domina mais do que a dominamos.

Apesar de a ciência não ser a única produtora de conhecimento, ela já pretendeu a sua hegemonia, é a principal responsável pela fragmentação do conhecimento. Disjunta da filosofia, segmentou-se em ciências físicas, biológicas e humanas, além do que, dentro destes segmentos dividiu-se em inúmeras disciplinas que continuam a subdividir-se, dando origem a especialistas de toda ordem, seguidores de teorias ou doutrinas as mais diversas, que quando não se antagonizam se desconhecem.

Mas os danos causados a civilização pela ciência não se restringe aos derivados de sua fragmentação. Usando novamente as palavras de Morin (2011a, p. 18), “em toda a história humana, a atividade cognitiva interagiu de modo ao mesmo tempo complementar e antagônico com a ética, o mito, a religião, a política; o poder, com frequência, controlou o saber para controlar o poder do saber”, queremos ressaltar a questão do poder. Como entidade interna a sociedade, a ciência sempre teve de conviver com os “poderes” reinantes nas sociedades, quer políticos, religiosos ou econômicos, no entanto, a subserviência atual da ciência ao poder econômico, mercado, ou político, governos, é comprometedor. Nas palavras de Ramonet, (2001, p. 82), fica clara a relação com o mercado:

[...] numerosos cidadãos estimam que a aliança entre capital, indústria e ciência constitui uma traição à ética desta última e que tal concepção mercantil do progresso é, em grande parte, responsável por alguns dos mais graves males planetários. Compromissos apáticos e recomendações átonas terão como único efeito retardar os inelutáveis prazos e a hora das decisões difíceis no momento em que o planeta deriva para uma catástrofe ecológica global.

Boaventura Souza Santos (2002, p. 34-35) em seu célebre discurso sobre as ciências, já expressava esta mesma opinião, quando disse:

As ideias da autonomia da ciência e do desinteresse do conhecimento científico, que durante muito tempo constituíram a ideologia espontânea dos cientistas, colapsaram perante o fenómeno global da industrialização da ciência a partir, sobretudo, das décadas de trinta e quarenta. Tanto nas sociedades capitalistas como nas sociedades socialistas de Estado do leste europeu, a industrialização da ciência acarretou o compromisso desta com os centros de poder económico, social e político, os quais passaram a ter um papel decisivo na definição das prioridades científicas. A industrialização da ciência manifestou-se tanto ao nível das aplicações da ciência como, ao nível da organização da investigação científica. Quanto às aplicações, as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram um sinal trágico, a princípio visto como acidental e fortuito, mas hoje, perante a catástrofe ecológica e o perigo do holocausto nuclear, cada vez mais visto como manifestação de um modo de produção da ciência inclinado a transformar acidentes em ocorrências sistemáticas.

Marilena Chauí (2001, p. 285-286) alerta para “o problema do uso das ciências” não só com relação ao poder econômico, mas também com o poder do governo, governo este que está também mais alinhado ao poder econômico do que a própria sociedade. A destinação de recursos, tanto por parte dos governos quanto de grandes empresas, direciona as pesquisas científicas para o atingimento de seus interesses, mais ligados ao poder e ao lucro do que aos reais interesses da sociedade. Ressalva ainda a autora, que a sociedade, apesar de haver algumas manifestações, especialmente de movimentos ecológicos, está impotente no combate a esta aliança espúria da ciência e poder econômico.

A partir das palavras de Ramonet (2001) acima, examine-se também a questão da ética, cuja ausência se faz sentir não só na ciência, mas praticamente em todas as atividades sociais.

A diferenciação entre ética e moral é sutil, tanto que há autores que não se preocupam em diferenciá-los, inclusive Edgar Morin (2011b, p. 15), pois na prática acabam tendo o mesmo significado. Mas, veja-se o que diz Vázquez (1998, p. 47): “a moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente que regulam o comportamento individual e social dos homens.” Para ética do mesmo autor, (1998, p.12): A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade”

Ainda segundo Borges (2017, p. 1):

A Ética teria surgido com Sócrates, pois se exige maior grau de cultura. Ela investiga e explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito, mas principalmente por convicção e inteligência.

Mais dois atributos, segundo Vázquez (1998, p. 148): “Toda norma funda um dever” e (p. 78): “As normas morais se cumprem através de convicção íntima dos indivíduos, [...]”.

Buscando sintetizar o acima exposto, poder-se-ia dizer que a ética conduz, desde o íntimo, a cumprir-se com o dever, já também internalizado, concebido a partir das práticas sociais, costumes, mores ou normas. Isto permite também afirmar que “quanto mais éticos forem as sociedades e os cidadãos, menor a necessidade de leis”  (MOTTA, 2009). Invertendo esta assertiva poder-se-ia dizer que quanto maior a necessidade de leis, uma realidade presente de forma contundente, menos ética é esta sociedade, como diz Meyer (2014): “Quanto mais leis e mais polícia existirem, menos ético é o povo. A grandeza de um povo não é medida pela maneira como são cumpridas as leis, e sim como são cumpridos os princípios que não estão escritos na lei: os valores, a ética.” E a proliferação de códigos de éticas nos dias presentes também corrobora a decadência ou quase inexistência de ética em nas sociedades contemporâneas, pois:

[...] os códigos de ética, na verdade, são leis disfarçadas, leis light, promulgadas por quem não tem poder para legislar (por exemplo, uma empresa, uma associação profissional) – e não são textos que decidam, de maneira cabal, sobre o caráter ético ou não das pessoas. [...].

Mas devemos sempre deixar claro que nenhum código de ética vai fazer uma pessoa ética.

Para alguém ser ético, é preciso mais do que a obediência a uma lei, e isso por melhor que seja a lei. Ou, para terminar: numa época cheia de agências certificadoras (tipo os vários ISO, 9000, 14000 e outros), não há agência certificadora para nosso caráter ético. Ele depende só de nós, de nossa consciência, [...] (RIBEIRO, 2017).

A decadência da ética se aproximando do que se poderia chamar de ausência de ética comprometendo os relacionamentos em todas a esferas da vida, tanto em sociedade como com o meio ambiente, está levando à barbárie, como expressa Morin (2011b, p. 86): “O mal ético está na barbárie das relações humanas, no próprio coração da civilização. Enquanto permanecermos como somos, continuaremos bárbaros e mergulhados na barbárie.”

Um componente da sociedade comprometido pela ausência de ética e talvez um dos alimentadores deste declínio da ética é o mercado. Expressão maior do capitalismo é no e pelo mercado que aquele se realiza. Uma necessidade humana para minimizar as dificuldades e facilitar o desfrute das benesses da civilização, tornou-se um fim em si mesmo para alimentar a ganância daqueles que nele operam.

Na e a partir da idade média, cidades formadas por comerciantes que operavam junto aos feudos, chamadas “burgos”, com vida independente daqueles, florescem e se desenvolvem, dando origem a burguesia, tendo desempenhado importante papel na substituição do regime político-institucional/social do feudalismo e da aristocracia dele decorrente, por regimes mais inclusivos. Mas a não submissão dos burgos aos feudos se mantém mesmo ao se mudarem os regimes, e até hoje a “liberdade de mercado” se faz presente.

Há objeções quanto a isto, como coloca Santayana (2011):

A sociedade organizada em estados políticos não só pode, como deve, opor limites à ganância do mercado. Entre outras razões para que os homens criassem o Estado, destacou-se a necessidade de que se impusesse a justiça. Não havendo a consciência de solidariedade, por parte de alguns, as primeiras comunidades criaram sistemas de coerção, que se desenvolveram até chegarem às complexas formas constitucionais modernas.

No mesmo sentido: “Elevar os objetivos do comércio acima da transparência e da responsabilidade que a democracia exige, acabará por destruir pelo menos uma destas instituições, quando não as duas.” (HAWKEN; LOVINS; LOVINS, 2004, p. 265).

Outro aspecto é destacado por Carlos Gabaglia Penna (1999, p. 213) quando diz que “a competição desperta o que há de melhor nas empresas e o de pior nas pessoas”.

É reconhecidamente verdade que a competição que desperta a ambição é a mola propulsora do progresso, do desenvolvimento, especialmente do desenvolvimento econômico, através do mercado. Já o acirramento da competição, acaba ultrapassando a simples ambição e desencadeando a ganância, cujos efeitos positivos já se tornam duvidosos, mesmo em se tratando de empresas, pois muitos problemas tem se originado deste comportamento. A degradação ambiental, tanto pelo uso indiscriminado dos recursos como pelo lançamento indevido de rejeitos e resíduos em função do lucro é exemplo contundente da ganância.

O crescimento econômico pelo crescimento do mercado depende do aumento da produção de produtos, mas ele só se completa pelo crescimento do consumo. Para promover o aumento do consumo necessário a manutenção do mercado em constante crescimento, a propaganda, publicidade, markting e outros instrumentos são massivamente usados a ponto de que “as pessoas gastam um dinheiro que não possuem, para comprar coisas que não necessitam, para impressionar pessoas que não conhecem” (PENNA, 1999, p. 52).

Konrad Lorentz (1986, p.141), etólogo austríaco, Premio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973, por seus estudos sobre o comportamento animal, inclusive dos humanos escreve:

Os publicitários descobriram, com os métodos comprovadamente válidos para as ciências naturais, que não tem muito sentido tentarem atingir o público-alvo de uma campanha com motivos racionais. É muito mais recomendável atingir as camadas mais profundas da alma humana, regidas pelos sentimentos, ou até mesmo o seu subconsciente. Não tem efeito algum uma tentativa de ensinar; o publicitário e o propagandista bem-sucedidos são os que sabem como manipular os instintos e as emoções humanas. Quem deseja conquistar grandes massas humanas utiliza a chave para o seu “coração”, vale dizer para o subconsciente, É aí que se encontram as normas comportamentais programadas geneticamente, como o medo, a sexualidade, a necessidade de ordenamento, etc., e estas são manipuladas impiedosamente através de todo tipo de armadilhas. Praticamente todas as emoções e sentimentos instintivos podem ser atingidos por meios e métodos propagandísticos e publicitários; para que esses procedimentos tenham efeito, é essencial, como aponta corretamente Aldous Huxley, que a pessoa não tome consciência de que o que tem diante de si é nada mais do que um símbolo de seu desejo, e não da satisfação desse desejo. O anúncio de um maiô ou de um creme de beleza parece prometer que a feliz adquirente terá a mesma aparência que tem o modelo fotográfico mostrado no anúncio. Os fabricantes de cosméticos vendem, conforme teria dito um deles a Aldous Huxley, “não a Lanolina mas sim a esperança”. A lanolina é barata; já pela esperança os fabricantes cobram muitíssimo mais caro. [...]. O efeito perigoso desse tipo de propaganda é que, pouco a pouco, as pessoas se acostumam a desdenhar o raciocínio e a verdade.

É a ciência, como vimos anteriormente, colaborando com o mercado, principalmente o publicitário, para enganosamente induzir a sociedade ao consumo em proveito do mercado e do capitalismo, e as consequências vão muito além das ambientais, desnorteando as pessoas inclusive sobre o que é certo ou errado e até sobre o adequado uso daquela capacidade específica dos seres humanos, a razão, o raciocínio.

Zygmunt Bauman, (2008) em seu livro “Vida para consumo” dedica um capítulo ao estudo das “baixas colaterais do consumismo” em que coloca que o principal “dano colateral” que pode ser resumido na sucinta frase: a “materialização do amor” e cita Arlie Russel Hochschild (apud BAUMAN, 2008, p. 153):

O consumismo atua para manter a reversão emocional do trabalho e da família. Expostos a um bombardeio contínuo de anúncios graças a uma média diária de três horas de televisão (metade de todo o seu tempo de lazer), os trabalhadores são persuadidos a “precisar” de mais coisas. Para comprar aquilo de que agora necessitam, precisam de dinheiro. Para ganhar dinheiro, aumentam sua jornada de trabalho. Estando fora de casa por tantas horas, compensam sua ausência do lar com presentes que custam dinheiro. Materializam o amor. E assim continua o ciclo.

Bauman (2008, p. 153) complementa dizendo;

Podemos acrescentar que a nova separação espiritual e a recente ausência física do cenário do lar tornam os trabalhadores, homens e mulheres, impacientes com os conflitos, sejam eles grandes, pequenos ou simplesmente, minúsculos e insignificantes, que se misturar sob um mesmo teto inevitavelmente provoca.

É a família então, outro fator em crise ou pelo menos a compor a crise civilizacional e em função não só do consumismo, mas de diversos outros fatores que está a degradar-se, já deixando de existir, pelo menos em sua forma extensa, em maior ou menor escala, principalmente na sociedade ocidental, como confirma Morin (2013, p. 357):

No ocidente, essa família ampliada desintegrou-se e, exceto entre alguns imigrantes do Sul, as famílias numerosas desapareceram. A família constituía uma microssociedade cujas funções eram econômicas, protetoras, solidárias, educativas e, até mesmo, religiosas. A creche, a escola, o hospital, o asilo, a aposentadoria suprimiram da família um grande número de suas missões tradicionais. [...]. Ainda resta a família nuclear, constituída pelo casal e por sua prole reduzida. Mas o casal também está em crise: o trabalho das mulheres, os encontros externos de cada um dos esposos, o superdesenvolvimento de um individualismo forçado, a liberdade sexual, as incompreensões e disputas, tudo isso mina e acaba por destruir o casal.

Raymundo de Lima (apud MARTINS FILHO, 2011, p. 95): “A sociedade capitalista corroeu, por um lado, a autoridade do pai e, por outro lado, sequestrou a mãe para o trabalho, impedindo-a de dar o necessário colo ao filho”. O próprio Martins Filho (2011, p. 95-96):

Nesta sociedade, já não se pode falar em patriarcado ou matriarcado. O que temos realmente, salvo exceções interessantes, é a ausência de definição de papéis, de quem assume o que em relação à família ou aos filhos. O pai fica envergonhado de colocar limites (tem medo de ser tachado de machista) e também se exime de cobrar da esposa, ou da mãe de seus filhos, uma atitude mais complacente e mais participativa na educação do dia a dia. A mãe, por sua vez, assusta-se e envergonha-se de dizer às amigas que, no fundo, o que gostaria mesmo é de poder dar um pouco mais de atenção à sua prole, ao marido, à sua própria vida.

De acordo com Lakatos e Marconi (1999, p. 321), a desintegração social e degradação das famílias têm causado e derivado em diversas mazelas sociais, tais como: delinquência juvenil, violência familiar, agenciamento sexual, pedofilia, gravidez precoce, entre outras.

Neste mesmo sentido, Morin acima citado (1999, p. 358) coloca:

Jacques Lévine enunciou as patologias da família contemporânea: pais abusivos ou fracos demais, eles mesmos oriundos de lares de pais abusivos e fracos, e quando se acrescentam a tudo isso a miséria, o alcoolismo, a crise da escola atual, criam-se crianças “desestabilizadas” e adolescentes perdidos que cedem à ira ou à auto-destruição.

A crise da escola atual, destacada por Morin, insere-se, deriva e realimenta não só a crise da família mas todas as demais entidades constituintes da sociedade. A fragmentação do conhecimento produzido pela ciência já abordado, é disseminado não só mas principalmente pela escola indo integrar-se a ação dos indivíduos na sociedade, tornando-se componente básico de todas as crises parciais e componente básico da crise global.

Independentemente da polêmica da “tábula rasa”, é certo que, como diz Mário Sérgio Cortella (2006): “não nascemos prontos”. Fisicamente somos o animal mais imperfeito ao nascer, totalmente dependentes tanto para locomoção como para alimentação, o que normalmente é providenciado pela família, especialmente pela mãe, pela amamentação, além de que somos o animal com o mais complexo aparato mental a ser desenvolvido, e é a educação que começa na família, o fator básico a alavancar este desenvolvimento.

Além disto, sendo um ser social, vivendo em grupos, necessitamos “que as novas gerações se integrem nestes grupos e para isto é necessário que tomem ciência do acervo de conhecimentos, normas, valores, ideias, ideologias, procedimentos, folkways e mores, tradições, enfim, sua herança cultural”, (LAKATOS; MARCONI, 1999, p. 221).

Este processo é responsável também pela formação da personalidade e do caráter de cada indivíduo, calcado em hábitos e valores, inculcados desde a mais tenra infância, pautados em preceitos e moldados pelo exemplo. A deficiência deste processo vai contribuir na crise da ética anteriormente explanada.

Com a desintegração da família, não só a atividade educativa complementar, mas até a responsabilidade pela educação como um todo, foi transferida para a escola, sobrecarregando-a e atribuindo-lhe responsabilidades incompatíveis com a sua função original.

Também ao se analisar a crise da ciência, sua subordinação ao mercado foi ressaltada, o que da mesma forma se aplica aqui, bem como a sua mercantilização, ou seja, a educação foi apropriada pelo mercado se tornando em reles mercadoria. Neste contexto, aliado a sua fragmentação, a escola e a educação como um todo está a serviço do mercado, mais preocupada em formar especialistas para o trabalho e consumidores generalistas do que cidadãos comprometidos com a sociedade, a civilização e o planeta.

Ao se analisar o consumismo, pautado na observação de Bauman (2008), foi possível perceber a influência da televisão como intermediária das pretensões do mercado em ampliar o consumo, necessário a subsistência e crescimento deste mercado. Na realidade não é só a televisão, mas a mídia de forma geral, parte integrante do mercado, subordinada a mesma lógica desenvolvimentista, que explorando uma gama de tecnologias e conhecimentos científicos modernos e crescentes, se presta a contribuir com o mercado e consigo mesma.

Utilizando-se de conhecimentos e técnicas da área da psicologia, consegue atingir subliminarmente até as pessoas bem formadas e esclarecidas, incutindo em seu subconsciente desejos e aspirações que levam ao consumo de bens supérfluos, inclusive com endividamento, e que conscientemente e racionalmente não seriam opção. Crianças e pessoas menos esclarecidas ou com personalidade não bem formada são ainda muito mais influenciadas e assumindo como desejo ou até direito, quando contestadas acabam gerando enormes conflitos, especialmente, entre pais e filhos adolescentes.

Além da propaganda, diversos outros conteúdos, plausíveis para adultos esclarecidos, como a violência, por exemplo, mas que causam enorme dano para mentes em formação ou personalidades frágeis, são em função do lucro e respaldadas por uma liberdade de expressão, diuturnamente explorados.

Setzer (2000a, 2000b e 2009) analisa diversos inconvenientes da televisão, principalmente às crianças, tais como: excesso de peso, obesidade e outras doenças típicas do sedentarismo, problemas de atenção e hiperatividade, agressividade e comportamento antissocial, medo e depressão, intimidação a colegas (bullying), indução de atitude machista, diminuição gradual dos sentimentos, indução à dementalidade de que o mundo é violento e violência não gera castigo. Com isso geram prejuízos para a leitura, provocam diminuição do rendimento escolar e prejuízo para a cognição, propiciando a possível confusão entre fantasia e realidade, o isolamento social e a problemas de relacionamento. O aceleramento do desenvolvimento pode gerar prejuízo para a criatividade, tendência ao autismo, a problema de vícios, indução ao consumismo, condicionamento e não informação, paralisia mental, indução de mentalidade de competição e ao final a destruição da vida familiar. Inevitável será resultar em falta de ritmo e sono saudável, a uma indução de impulsividade e negatividade e admiração pelas máquinas, dentro de mentalidade materialista e mercantilista.

Setzer (2012,):

Quem tem os olhos e a mente bem abertos pode observar algo muito importante: a tecnologia está destruindo a natureza e o ser humano. Uma das maneiras mais seguras de destruir esse último é destruir a mente das crianças e adolescentes, e é justamente o que a Internet, junto com os outros meios eletrônicos, está fazendo, [...].

As mídias em tela, televisão, videogames, computador, mais especificamente, a internet, cujos efeitos sobre o cérebro ainda estão sendo estudados, mas já é notório que apesar de algumas dessas mídias agilizarem o pensamento, elas primam por torná-lo descontínuo, saltitando entre imagens e informações, ampliando o efeito da compartimentalização já decorrente da ciência cartesiana. Também Carr (2011, p. 285), infere que o nosso cérebro assimila as ferramentas externas que usamos como mais um dispositivo a seu dispor e incorpora-as a seu cotidiano, e escreve:

O preço que pagamos para assumir o poder da tecnologia é a alienação. O tributo pode ser especialmente alto com as tecnologias intelectuais. As ferramentas da mente amplificam e por sua vez amortecem as mais íntimas, as mais humanas das nossas capacidades naturais – aquelas da razão, percepção, memória e emoção.

Em princípio, o controle tanto das mídias como do mercado em prol do bem comum deveria ser exercido pelo Estado.

A democracia, considerada a menos pior das formas de governo, vem se expandindo quantitativamente. No entanto, Morin (2013, p. 81) nos adverte:

Não basta que uma democracia seja instaurada após a queda de uma ditadura. A democracia é um sistema frágil que crises graves podem arruinar e que demanda um longo enraizamento histórico para se consolidar. As crises das democracias preparam o terreno para as ditaduras, mas, felizmente, as crises das ditaduras preparam o terreno para as democracias [...].

Falando a respeito da ineficácia das ações planejadas a partir da ECO-92, Grow Harlem Brundtland, em entrevista, (RODA VIVA, 2005,) declara:

O problema é a falta de comprometimento e, como disse, a falta de planejamento a longo prazo e da perspectiva de longo prazo do governo. Isso é um grande desafio para a nossa democracia porque, mesmo agora, vemos que em alguns países diminui a participação nas eleições. As pessoas não estão participando do processo eleitoral. Estão se distanciando, se sentindo excluídas, ou com preguiça, dependendo. Há todas as variantes. As nossas democracias não são vigorosas o bastante. Não estão ativamente impulsionadas pelas pessoas em geral, para um benefício de longo prazo delas e das próprias famílias, dos filhos e dos netos. Estamos em grandes dificuldades. Temos esses desafios da humanidade e não conseguimos achar os caminhos que possam levar às mudanças certas no tempo. É um grande problema. Não tenho a solução.

Morin (2001, p. 112) já alertava:

Nessas condições, impõe-se as sociedades reputadas como democráticas a necessidade de regenerar a democracia, enquanto, em grande parte do mundo, se apresenta o problema de gerar democracia, ao mesmo tempo em que as necessidades planetárias nos reclamam gerar nova possibilidade democrática nesta escala.

Capitalismo e mercado, iniciativa privada, interesses individuais, vem trabalhando em prol de um estado menor, mais fraco, permitindo-lhes maior espaço e oportunidades, e liberdades ou liberalidades.

Pode-se repetir aqui as palavras de (HAWKEN; LOVINS; LOVINS, 2004, p. 265): “Elevar os objetivos do comércio acima da transparência e da responsabilidade que a democracia exige, acabará por destruir pelo menos uma destas instituições, quando não as duas.”

Outro aspecto a incomodar as democracias é as desigualdades, incluindo-se a econômica ou dela derivadas, tanto entre regiões, como entre países e até internamente entre regiões de um mesmo país, ou até entre bairros de uma mesma cidade.

Presentes em maior ou menor grau ao longo do tempo e do espaço, atribuídas as mais diversas causas, desde o determinismo geográfico, étnico, cultural, ao possibilismo, às características institucionais e até a mera expropriação do mais fraco pelo mais forte, agravam-se na modernidade como coloca Morin (2013, p. 142):

A mundialização reforça a desigualdade por toda parte. Entre seus efeitos negativos, indicamos: o crescimento do desemprego e do subemprego e o o empobrecimento. A distância entre os que podem aproveitar as oportunidades oferecidas pela mundialização e os que dela são excluídos aumenta em todos os níveis. Um quinto da humanidade consome (e produz) sozinho os quatro quintos da riqueza mundial. Essa mundialização é a origem do agravamento do destino de populações vulneráveis.

Independentemente das causas, as soluções extrapolam aos estados mas não à democracia, como continua Morin (2013, p.143):

Em resumo, o problema das desigualdades tornou-se enorme e continua múltiplo; exige uma política ampla e complexa. Voltamos a repetir que essa não pode ser uma política tecnoburocrática de homogeneização, destruidora das diversidades que constituem as riquezas culturais da humanidade.

Após apresentar algumas sugestões de algumas ações globais e outras locais no âmbito das nações, Morin (2013, p.144) argumenta:

O triplo imperativo político liberdade-igualdade-fraternidade deve ser articulado. Isso porque, a liberdade, sozinha, destrói a igualdade, a igualdade imposta destrói a liberdade, e a fraternidade, que não poderia ser imposta, depende da combinação de um conjunto de reformas políticas (entre elas, as casas de solidariedade, o serviço cívico de solidariedade), de reformas educativas e de reformas individuais (entre elas, a reforma de vida e a reforma ética). [...]. Desse modo, a redução progressiva das desigualdades deve efetuar-se simultaneamente por meio de uma política planetária (política da humanidade, política de civilização), por meio de políticas nacionais, que reduziriam as diferenças de níveis de vida, regenerando as solidariedades, combatendo a corrupção e, finalmente, por meio das reformas de vida e das reformas éticas que favorecem a compreensão das misérias e das infelicidades do próximo.

A fraternidade não pode ser imposta, conforme o texto acima, portanto não pode ser exigida por lei e em consequência está fora do âmbito político do Estado e sem ela não haverá compreensão das misérias e das infelicidades do próximo.

As religiões sempre desempenharam papel salutar nesta área, mas sua competência vem se esvaziando ao longo dos últimos séculos, conforme nos informa o mesmo autor (MORIN, 2013, p. 26):

As religiões, que, graças aos avanços da laicidade, haviam regredido, estão progredindo em detrimento dela, mas elas mesmas estão em crise, pois, divididas entre modernismo e conservadorismo, atormentadas por conflitos internos entre cultos rivais, mostram-se mais do que nunca incapazes de assumir seus princípios de fraternidade universal.

Silvio L. Sant’Ana (2005, p. 14) escreve que o “surto neo-pentecostal, com sua “teologia da prosperidade”, propagada sobretudo pela ação espetacular da Igreja Universal do Reino de Deus” ameaça, depois de séculos, a hegemonia cultural católica no Brasil.

Esta perspectiva teológica voltou-se para os bens materiais, saúde, prosperidade, felicidade, relegando a espiritualidade, aproveitando os desejos criados pela propaganda, reforçando o círculo vicioso do consumo que já vimos.

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