INTRODUÇÃO

Admitida a teoria evolucionista, não obrigatoriamente como fato mas pelo menos como hipótese de trabalho, mesmo porque sua contestação tem decaído ao longo do tempo, estende-se o campo de estudo ao  limiar do surgimento da espécie humana, considerado, em uma macro visão da evolução, o terceiro salto qualitativo.

A emergência da mente/racionalidade, fator básico a diferenciar a espécie humana das demais espécies vivas que compõe a biosfera deste planeta, é também o fator básico para entender a complexidade daquilo que se poderia denominar crise civilizacional contemporânea.

A jornada épica propiciada à espécie humana pela emergência da mente, a “aurora do homem”, que o transforma de “homem das cavernas” em astronauta pilotando naves espaciais, tem consequências diferenciadas para as diferentes espécies e para o meio que as mantém.

Se para alguns, a humanidade errou o caminho, parece mais plausível dizer-se que iniciou-se com o “pé trocado’, pois um novo caminho era inevitável, mas o descompasso, a desarmonia com o restante da biosfera é ali que se inicia, apesar de os protagonistas destes eventos não terem noção da dimensão, nem condições e nem necessidade de agirem diferentemente, pelo menos nas relações interespecíficas, e as relações intraespecíficas que começam a ser determinadas também pela cultura e racionalidade, que eram ali incipientes e insuficientes.

O conhecimento, derivado de um cérebro que pensa e se torna racional, partilhado entre indivíduos e prolongado em gerações pela oralidade na vida tribal, torna-se cada vez maior pela acumulação que a escrita proporcionou na sociedade civilizada. A linguagem possibilitada pelo aparelho fonador desenvolvido e especializado, diferentemente das demais espécies é fator de relevante importância.

A civilização ocidental, trazida pelo cristianismo, derivado do judaísmo, incorporando as civilizações do mediterrâneo, especialmente, a grega ou greco-romana, experimenta um grande impacto a partir do renascentismo ou iluminismo, reforçado pela revolução industrial, fazendo da ciência moderna o ápice desta cultura, que se globaliza. O uso do conhecimento gerando invenções ou descobertas, produziu uma enormidade de ferramentas, ampliando a capacidade de produção de bens e também de conhecimentos, facilitadores da sobrevivência e proporcionadores de prazer.

Em princípio, são estas ferramentas produzidas pelo conhecimento, ou eventualmente, o próprio conhecimento, as causas básicas da crise civilizacional. Utilizando-se destas mesmas ferramentas do conhecimento, especialmente as do conhecimento científico, mas de modo autocrítico, busca-se possíveis entendimentos do como e porque este conhecimento se tornou causa desta crise.

O título desta reflexão, pensado a partir do livro de Jared Diamond, “Colapso. Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, pretende ir além ao perguntar e consequentemente investigar, “porque não mudamos de rumo?”.

Mas, leva-se em consideração a sua argumentação constante no prólogo de sua outra obra, “Armas, germes e aço”., onde, a propósito de responder a pergunta de Yale, um nativo da Nova Guiné, sobre a necessidade ou não da parafernália produzida pela civilização, escreve:

Essas exigências parecem inicialmente requerer um trabalho multiautoral. Mas essa possibilidade está condenada desde o início, porque a essência do problema é desenvolver uma síntese única. Portanto, seria necessário apenas um autor, apesar de todas as dificuldades que a tarefa apresenta. Inevitavelmente, esse único autor terá que suar muito para assimilar material de muitas disciplinas, e vai precisar de orientação de muitos colegas. (DIAMOND, 2011, p.  26).

E, é a partir desta argumentação, na tentativa de superar as limitações ali elencadas, que se optou pela utilização de site na internet, tornando possível  um trabalho multiautoral,  com as mais diversas contribuições, mas mantendo-se a intenção de síntese única, ao utilizar-se de algumas ferramentas transdisciplinares, como o mapa conceitual, cuja construção poderá prolongar-se ao longo do tempo e que poderá transpor inclusive divergências intergeracionais.

CONTEÚDO DOS TÓPICOS

Em crise civilizacional apresenta-se uma síntese das opiniões de diversos intelectuais preocupados com os rumos da civilização contemporânea, de acordo com suas visões de mundo e em função dos problemas ambientais e sociais percebidos. Para alguns pode parecer catastrofismo, para outros, a realidade pode ser ainda pior, mas é preferível o excesso de precaução, a sermos surpreendidos por não termos previsto as possibilidades de catástrofes.

Em evolucionismo incialmente apresenta-se a opinião da validade da teoria de dois importantes líderes mundiais. Na sequência, uma macrovisão da evolução que ultrapassa a teoria darwinista, a perspectiva de três saltos qualitativos, sendo o terceiro, a emergência da mente/racionalidade, uma das peças fundamentais na construção da presente reflexão. Outra peça fundamental é a seleção multinível, como possibilidade de explicar a condição sapiens/demens, bom/mau, egoísta/altruísta, competição/cooperação da espécie humana.

Em emergência da mente, o terceiro salto qualitativo, nosso momento geológico ainda em andamento é melhor analisado. Suas origens e consequências possibilitam um entendimento mais amplo e ao mesmo tempo mais profundo da condição humana. Clareia a percepção da superação da sujeição da espécie humana à natureza, e a criação de um vácuo sistêmico à semelhança de uma espécie exótica.

DIAMOND, J. Armas, germes e Aço: os destinos das sociedades humanas. Tradução de Silvia de Souza Costa, Cyntia Cortes e Paulo Soares. 13ª Ed. São Paulo: Record, 2011

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Reflexão e site em construção, aberto a críticas e sugestões, desde que, racional e sistemicamente construídas e/ou demonstradas. As futuras gerações agradecem pela contribuição.

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DIAMOND, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Trad. de Alexandre Raposo. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

E-mail: ambiente@saudavelesustentavel.org

A cultura, tópico seguinte, é um sistema bottom up espontâneo à semelhança da natureza, resultante da interação dos seres humanos, dotados agora de uma mente racional em interação com os instintos primitivos. A predominância natural do instinto de sobrevivência individual torna o egoísmo a caraterística fundamental dos seres humanos, mas com capacidades ampliadas pela mente emergente, ferramenta que constrói ferramentas, se potencializa, se propaga, se transmite sem a restrição hereditária, pois é externa ao corpo, e se acumula. Com o surgimento das espécies sociais ou eussociais, entre elas a espécie humana, aparecem também os instintos de sobrevivência coletivos, altruísmo e cooperação, que não substituem os instintos individuais mas vão compor com eles.

As experiências vivenciadas e compartilhadas pelos primeiros seres humanos compõem a sua cultura e dentro dela o conhecimento é parte que se destaca e que adquire características específicas ao tentar inicialmente entender e explicar o mundo que o circunda. O mito, explicação imaginária para as coisas e fenômenos do mundo a sua volta é o que se pode denominar de passo inicial do conhecimento. A experiência empírica e os mitos possibilitam a formação de uma opinião, doxa. Justificar a opinião por procedimentos exclusivamente racionais gera a episteme. A ascensão da ciência separando-se da filosofia encerra a idade média e dá início a idade moderna, o Iluminismo. A expansão do conhecimento faz com que a ciência se divida em disciplinas, cujo número continua a aumentar, gerando o cartesianismo, que prioriza a especialização em cada disciplina. O conjunto de disciplinas também se subdivide em ciências positivas e ciências humanas. Paradigma clássico.

Pensamento sistêmico, proposto como novo paradigma da ciência, mesmo percebido há bastante tempo, só em meados do século XX, se estrutura e começa a ser utilizado para dar conta da complexidade emergente do desenvolvimento, tanto científico, como tecnológico e também social. Originado de diversos especialistas, compõem-se de diferentes abordagens que vão convergindo em um paradigma razoavelmente homogêneo. Apesar disto, suas premissas são ainda muito utilizadas de forma cartesiana, ignorando a necessidade de uma visão sistêmica ampla para realmente dar conta da complexidade emergente.

Bottom up e Top down derivam de uma característica sistêmica em função da sua orientação. Quando o sistema é orientado e gerenciado de cima para baixo, maioria dos sistemas humanos intencionalmente estabelecidos, é topo down. Já a natureza, dentro dela os sistemas das espécies sociais, e os sistemas humanos espontâneos, cultura, dentro dela o mercado, ciência e outros, são bottom up. Despotismo e democracia são em teoria exemplos significativos destas duas perspectivas. Como a orientação e gerenciamento dos sistemas bottom up dependem da interação de um grande número de integrantes, princípios integradores são fatores cruciais e de difícil operacionalização, mas livram seus integrantes de ficarem a mercê de autoritarismos, normalmente orientados por instintos e emoções individuais.

Um dos atuais modismos é a polêmica sobre disciplinaridade, multi, inter e transdisciplinaridade. A disciplinaridade , ou cartesianismo, é encarada como problema e a multi, inter ou transdisciplinaridade como possíveis possibilidades de superação dos problemas gerados pela disciplinaridade, mas como atuam a posteriori apenas minimizam os problemas sem solucioná-los, podendo inclusive contribuir para o seu crescimento. Senso comum esclarecido pelas ciências ao atuar a priori poderá, na pior das hipóteses, reduzir a produção dos problemas gerados pela disciplinaridade. O senso comum, nele incluídos instintos e emoções, já é o fator básico a orientar a sociedade. Torná-lo esclarecido e incluir nele também os cientistas especialistas poderá melhorar o desempenho da sociedade e minimizar os problemas gerados pelos especialistas.

Razão, emoção ou instintos. Como conciliá-los? São realmente antagônicos? Os instintos são básicos em todos os seres vivos e possibilitam a sobrevivência. As emoções se evidenciam ao ampliar-se a complexidade dos indivíduos e a formação de grupos, contribuindo para a eficácia dos instintos para sobrevivência e preservação da vida. A razão, característica aparentemente exclusiva dos seres humanos, é o ápice da evolução até agora. É uma ferramenta que produz ferramentas, tecnologias, impulsionando sobremaneira as capacidades instintivas de sobrevivência, cria a cultura, possibilitando a transmissão de indivíduo para indivíduo, vertical e horizontalmente e acumular-se. A interação recursiva congregando inclusive interesses antagônicos produziu comportamentos diversos, sendo os que melhor se adaptaram selecionados pela natureza no passado recente. No presente em que a natureza vem perdendo sua capacidade de seleção, é a cultura, pelo bom senso ou pelo conhecimento, mesmo que ou principalmente em função de ser cartesiano, que vem exercendo este papel. Apesar de a polêmica continuar, a interação de instintos, emoções e razão, acrescidos das crenças culturalmente produzidas, estão tendo hipóteses explicativas esclarecedoras pelos estudos das neurociências atualmente produzidos. A interação cérebro, corpo, ambiente através dos sentidos, utilizando-se de instintos, emoções, razão e crenças, produz comportamentos e reações a nível inconsciente, imperceptíveis ao e de certa maneira incontroláveis pelo consciente. A prevalência do inconsciente como atividade mental, torna frágil a voluntariedade consciente do comportamento humano, além do que, o inconsciente é avesso à educação formal. Nestas condições o autogerenciamento individual é extremamente insuficiente e altamente perigoso para o coletivo.

Democracia, direitos e liberdade, deveres e responsabilidade, na perspectiva da visão de mundo sistêmica, especialmente com a perspectiva bottom up, deverão ser repensados. A condição bottom up vai exigir a participação efetiva senão de todos, pelo menos de uma massa crítica de pessoas que de forma consciente e esclarecida pelo senso comum esclarecido possibilitem a humanidade autogerenciamento e autogovernança, restringindo os desmandos de autocracias. A conscientização de que direitos e liberdade são produtos do processo democrático cujos insumos são os deveres e responsabilidade deslocará a ênfase para estes últimos e para o processo. Evidentemente, anarquistas e similares, ou seja, espertinhos que só querem usufruir sem contribuir com este universo sistêmico, deverão procurar outro universo, condição facilitada agora pelas teorias da existência de multiversos.

 A ética é fator de suma importância na prática sistêmica bottom up, mesmo o foco tendo se deslocado do indivíduo para suas relações, em que controle e contracontrole embasados pelo senso comum esclarecido tornam-se os garantidores da sua eficácia. Apesar disto, indivíduos éticos serão impulsionadores dos sistemas bottom up, ampliando sua eficácia, enquanto indivíduos não éticos tendem a entravar o sistema tornando-se carga pesada ao mesmo. Ultrapassando os debates e as pregações improfícuas de mais de dois mil anos, o senso comum esclarecido, especialmente com referência a visão sistêmica de mundo, deverá fundamentar uma ética racional global, mas que de forma alguma poderá negligenciar a condição instintivo/emocional dos indivíduos.

 Competição. A cadeia trófica e a escassez de recursos, base da seleção natural, obrigatoriamente conduz os indivíduos a, em função do instinto de sobrevivência, disputarem a apropriação desses escassos recursos. Mutações genéticas e sua interação com o ambiente tornam alguns mais aptos, mais competentes na apropriação dos recursos e consequentemente na geração de descendência viável e com as características genéticas diferenciais transferidas hereditariamente, prevalecendo em detrimento dos menos aptos/competentes. Esta aptidão/competência é a competição natural e restringe-se a obtenção do recurso. A emergência da mente/racionalidade dota os seres humanos da capacidade de melhor compreensão do presente, recordação do passado e possibilidade de inferir um futuro. Inferido um futuro, evidencia-se a necessidade da ampliação da apropriação dos recursos também para uso futuro. A maneira óbvia para concretização deste objetivo é o afastamento do concorrente, ou melhor ainda, sua eliminação. O objeto da competição deixa de ser simplesmente o recurso e passa a ser o concorrente. Num mundo sistemicamente interdependente uma visão imediatista torna a maior parte dos demais seres, concorrentes, mas que se modifica e até se inverte ao se alongar o horizonte de consideração. Efeito dominó. Competição cultural, mais ou menos instintiva ou racional.

 A educação, sendo o processo que deve dar continuidade a formação do indivíduo, tanto física como mental/intelectualmente, processo este iniciado no útero materno, deve compor-se de etapas sucessivas apropriadamente adequadas a sua idade, respeitadas as idiossincrasias. Inicia-se com as questões práticas básicas de sobrevivência, prossegue com as questões da vida em sociedade, familiar, comunitária local e global, intra e interespecífica, incluindo-se aí as competências necessárias para o desempenho da sua participação nesta vida comunitária. A natureza é complexa, mas a emergência da mente na espécie humana, inclusive gerando a cultura, torna a vida um processo de complexidade evolutivamente crescente, exigindo também um processo educacional continuado, praticamente durante toda a vida do indivíduo. Diferentemente dos demais animais, onde o comportamento é basicamente senão exclusivamente instintivo, os seres humanos tem seu comportamento orientado por um complexo processo instintivo, emocional e racional realizado prioritária e majoritariamente pelo inconsciente, com interações não voluntárias com o consciente. Cérebro, neurônios, axônios, sinapses, sistemas nervosos, sentidos perceptivos, formam ou contribuem para formação deste inconsciente, processo que apesar de prologar-se ao longo da vida é majoritariamente realizado nos primeiros anos de vida, o que torna a educação deste período de importância ímpar, e em função de ser o inconsciente refratário à educação formal, o que as neurociências vem constatando, exige-se a busca de alternativas educacionais não formais ou uma substancial modificação da educação formal.

 Poluição sonora e outras distrações é inserida nesta reflexão em função das implicações da mesma sobre a atividade mental mais elevada, extremamente necessária para a compreensão da dimensão e da complexidade de que se reveste esta temática. Barulho, música alta, poluição visual com propagandas e outros efeitos luminosos, especialmente à noite, tendem a entorpecer o cérebro, inibindo ou dificultando não só a atividade mental elevada, mas até a simples tarefa de pensar ou divagar, maneira não só de relaxar a mente como até de aprender a pensar. A presença de mais “joio” do que “trigo” e o caráter viciante e alienante são a face negativa da internet, mídia e redes sociais que contribuem na inibição da percepção da crise civilizacional, cuja possibilidade se avizinha, bem como dificulta o processo educativo de forma geral.